No vasto oceano de lançamentos independentes que todas as semanas inundam as plataformas digitais, é cada vez mais raro encontrar uma obra que consiga transmitir de imediato um sentimento de genuína paixão e ambição desmedida. Colossus – Eternal Blight surge precisamente sob este pretexto, apresentando-se como um daqueles pequenos tesouros em estado bruto que, apesar de ainda não estarem lapidados, revelam um potencial tremendo desde os primeiros instantes de interacção. Lançado em regime de acesso antecipado, o jogo não tem medo de arriscar e de cruzar diferentes géneros que, à partida, poderiam parecer difíceis de conciliar numa estrutura coesa.
A proposta da equipa de desenvolvimento passa por fundir a exploração clássica de masmorras inspirada na série clássica de Zelda com a intensidade mecânica dos RPG de acção modernos, salpicando o conjunto com elementos narrativos fortes, mecânicas de sobrevivência e progressão do tipo roguelite. É uma receita complexa e que facilmente poderia resultar num desastre indigesto se não houvesse uma visão clara por trás de cada decisão de design. Felizmente, as primeiras impressões deixadas por esta versão preliminar apontam para um rumo surpreendentemente sólido, onde a maioria das peças parece encaixar com uma harmonia inesperada.
Como é natural em qualquer projecto que inicia a sua caminhada pública nesta fase de desenvolvimento, existem arestas óbvias por limpar, problemas de equilíbrio e falhas técnicas que requerem atenção. No entanto, a base de jogo é tão forte e a atmosfera tão envolvente que se torna fácil olhar para além destas imperfeições temporárias. Colossus – Eternal Blight não quer ser apenas mais um título na biblioteca dos jogadores, mas sim uma experiência marcante que demonstra como a dedicação e o carinho pelos pormenores podem elevar um projecto independente acima da média da indústria actual.
Jogabilidade
O núcleo mecânico de Colossus – Eternal Blight assenta num sistema de combate dinâmico e reactivo que bebe inspiração directa nos RPG de acção contemporâneos, sem contudo se tornar excessivamente punitivo ou inacessível para o jogador comum. Na pele do protagonista, o jogador passará a maior parte dos confrontos a alternar entre ataques normais de espada, esquivas rápidas e uma mecânica de contra-ataque oportuno que exige alguma precisão temporal. O sistema de parry, que tantas vezes afasta os jogadores menos pacientes noutras produções, aqui surge implementado de forma bastante justa. Os inimigos telegrafam os seus movimentos de forma clara e perceptível, permitindo que a reacção defensiva pareça uma conquista de perícia pessoal em vez de uma adivinhação frustrante baseada na sorte. Para quem prefere uma abordagem mais ágil, a esquiva continua a ser uma alternativa perfeitamente viável e eficaz para evitar danos.
A progressão da personagem é assegurada através de múltiplas árvores de habilidades que permitem moldar o estilo de combate do herói. Esta flexibilidade convida à experimentação de diferentes combinações e tácticas de combate, embora a execução prática destas habilidades ainda sofra de alguma lentidão indesejada. Durante as batalhas mais caóticas e povoadas por múltiplos adversários, o acto de segurar os gatilhos do comando para activar as habilidades especiais pode parecer algo desajeitado e quebrar o ritmo fluido dos confrontos. É um aspecto que carece de afinação de modo a tornar a acção mais imediata e menos propensa a falhas de comando em momentos de grande pressão.
Para lá da vertente puramente combativa, o jogo brilha ao oferecer uma enorme variedade de actividades e quebra-cabeças inspirados nos moldes mais tradicionais do género de aventura. A exploração do mapa é constantemente incentivada e recompensada com tesouros escondidos, melhorias de equipamento essenciais e segredos bem guardados que exigem atenção redobrada ao cenário. Os puzzles variam entre os clássicos desafios de empurrar blocos e enigmas mais complexos que obrigam à observação atenta do meio envolvente. Há momentos em que o jogo nos obriga genuinamente a parar, a reflectir e a registar notas mentais ou físicas sobre pistas visuais espalhadas pelo mundo, resgatando aquela sensação nostálgica de descoberta que muitos títulos modernos perderam ao facilitar demasiado a vida ao jogador.
Contudo, nem todos os quebra-cabeças atingem o mesmo nível de qualidade. Alguns dos desafios focados na movimentação de blocos tendem a arrastar-se por mais tempo do que o necessário, gerando quebras indesejadas no ritmo da aventura e na dinâmica geral do progresso do jogador. Adicionalmente, existem decisões de design que dividem opiniões, como o facto de o descanso nos pontos de salvaguarda fazer reaparecer todos os inimigos derrotados na área. Esta mecânica herdada dos jogos do estilo Souls pode agradar aos puristas que procuram um desafio constante, mas a inclusão futura de opções de acessibilidade para mitigar este efeito seria uma adição muito bem-vinda para quem prefere focar-se puramente na exploração e na narrativa sem a frustração de limpar as mesmas zonas repetidamente.

Mundo e história
A narrativa de Colossus – Eternal Blight coloca-nos no papel de Lucian, um jovem determinado a seguir as pisadas do seu irmão mais velho, Lance, um guerreiro amplamente respeitado em todo o reino. O enredo ganha contornos dramáticos quando uma corrupção misteriosa e devastadora conhecida como Blight começa a consumir as terras e a espalhar o caos pela população. Para adensar o mistério, Lance desaparece sem deixar rasto, forçando Lucian a assumir a responsabilidade de procurar o irmão ao mesmo tempo que tenta travar o avanço implacável desta escuridão que ameaça extinguir toda a vida no reino.
Embora a premissa de um reino assolado por uma maleita misteriosa e a busca por um familiar desaparecido não sejam conceitos revolucionários no panorama da fantasia medieval, a forma como a história é apresentada consegue prender a atenção do jogador desde o início. A escrita é surpreendentemente madura e os diálogos revelam-se naturais e credíveis. A relação entre os dois irmãos é construída sobre uma base de afecto genuíno mas também de alguma tensão latente, o que confere tridimensionalidade aos protagonistas. As personagens secundárias que habitam as vilas e os acampamentos não servem apenas como meros distribuidores de missões, possuindo personalidades distintas que ajudam a dar alma ao universo do jogo.
Um dos aspectos mais intrigantes de toda a experiência reside na forma como a corrupção do Blight afecta o próprio mundo e as escolhas do jogador. Ao longo da jornada, deparamo-nos com habitantes infectados pela maleita cujos destinos dependem directamente das nossas acções. O jogo incentiva-nos a investigar os seus passados, a recolher informações cruciais junto de outros habitantes e a ponderar cuidadosamente a decisão a tomar em relação a cada situação. A possibilidade sugerida de o próprio Lucian poder vir a abraçar a corrupção em troca de poderes acrescidos abre portas a ramificações narrativas fascinantes que mal podemos esperar para ver desenvolvidas em pleno ao longo do período de acesso antecipado.
Grafismo
Visualmente, Colossus – Eternal Blight é um verdadeiro deleite para os apreciadores da arte pixelizada. Longe de ser apenas mais um jogo a tentar capitalizar na nostalgia dos tempos passados, o trabalho artístico apresentado neste título revela um nível de detalhe e sofisticação extraordinário. Quando a acção entra em movimento, o mundo ganha uma vida impressionante graças a animações extremamente fluidas e expressivas que conferem peso e dinamismo a todas as acções, desde o simples caminhar do protagonista até aos golpes mais vistosos durante os combates.
Os cenários são densos, ricos em vegetação e repletos de pequenos pormenores que ajudam a construir a ilusão de um mundo vivo e orgânico. Podemos observar pássaros a levantar voo assustados com a nossa aproximação, folhas a dançar ao sabor do vento nas florestas cerradas e vilas que transbordam de actividade e cariz próprio nas suas tabernas e praças públicas. Este cuidado minucioso com a composição visual dos cenários não só melhora a imersão como serve também propósitos práticos, uma vez que muitos dos segredos e pistas para os quebra-cabeças estão integrados de forma subtil na própria paisagem.
A interface de utilizador é limpa e não obstrui a visão do jogador, permitindo que a beleza do trabalho de pixel art seja a verdadeira protagonista do ecrã. O desempenho visual, contudo, ainda sofre com as dores de crescimento típicas de um acesso antecipado. Foram registados alguns tempos de carregamento invulgarmente longos em determinadas transições de zonas, especialmente nas secções inspiradas em mecânicas roguelite que antecedem os confrontos com os bosses mais imponentes. São pormenores de optimização técnica que a equipa de desenvolvimento certamente terá oportunidade de corrigir nas próximas actualizações.

Som
A componente sonora de Colossus – Eternal Blight desempenha um papel fundamental na criação da atmosfera opressiva mas simultaneamente mágica que caracteriza o jogo. A banda sonora é de uma qualidade assinalável, demonstrando uma enorme versatilidade ao adaptar-se de forma dinâmica àquilo que está a acontecer no ecrã. Durante os momentos de exploração livre pelas florestas e planícies, somos embalados por melodias suaves e serenas que convidam à contemplação e à descoberta calma dos recantos do mapa.
Essa tranquilidade é abruptamente interrompida quando entramos em combate, momento em que a música transita com enorme naturalidade para composições enérgicas e ritmadas que elevam a tensão e a adrenalina de cada confronto. Os efeitos sonoros dos golpes de espada, do impacto dos escudos e das magias têm o peso necessário para tornar o combate satisfatório ao ouvido, complementando a resposta visual de forma exímia. O ruído ambiente das florestas, o sussurrar do vento e os sons característicos das criaturas corrompidas ajudam a desenhar um quadro sonoro rico e envolvente que prende o jogador ao ecrã.
Conclusão
Colossus – Eternal Blight apresenta-se como um projecto de enorme coragem e potencial que não tem medo de apontar alto. Ao tentar cruzar a exploração e os quebra-cabeças inspirados nos clássicos de aventura com a exigência mecânica dos combates modernos e a densidade de uma narrativa moldada pelas escolhas do jogador, o jogo consegue criar uma identidade muito própria que se destaca no panorama actual dos videojogos independentes.
Como seria de esperar nesta fase de desenvolvimento, existem arestas óbvias a necessitar de polimento. O posicionamento de alguns grupos de inimigos pode por vezes parecer injusto, a lentidão na activação das habilidades de combate quebra ligeiramente a fluidez da acção e a presença de pequenos erros técnicos, como personagens presas no cenário ou encerramentos inesperados do jogo, relembram-nos constantemente de que este é um trabalho ainda em curso. No entanto, a generosidade dos pontos de salvaguarda e a paixão evidente colocada em cada detalhe do mundo fazem com que estes problemas sejam facilmente toleráveis.
Para quem procura uma aventura rica, visualmente deslumbrante e com uma história que realmente desperta o interesse em continuar a jogar, Colossus – Eternal Blight é uma recomendação obrigatória. O jogo demonstra ter um coração enorme e uma direcção artística fantástica que promete continuar a evoluir e a surpreender ao longo do seu período de acesso antecipado. É, sem dúvida alguma, um daqueles títulos independentes que vale a pena acompanhar de muito perto, pois tem todas as ferramentas necessárias para se tornar num clássico de culto do género.
