Talaka entra em campo com força. O mercado dos roguelites de acção está cheio de deuses gregos e guerreiros medievais. O estúdio brasileiro Potato Kid sabe disso. Por isso, decidiu olhar para as suas próprias raízes. O resultado é um jogo que usa a mitologia afro-brasileira e os Orixás. Estes elementos dão um propósito real a cada tentativa de sobrevivência.
Jogabilidade
O combate rápido dita o ritmo de tudo. Controlar o guerreiro exige precisão. Mas o que importa aqui é como as mecânicas se ligam à estrutura de repetir o jogo. Morrer e voltar a tentar não é só um ciclo técnico. Cada tentativa serve para restaurar mitos. São mitos que foram partidos e esquecidos pelo tempo. Esta ligação dá um peso invulgar a cada sessão de jogo.
A grande questão está na forma como os poderes dos Orixás entram no jogo. Há um risco real aqui. Estas forças divinas podem parecer só habilidades com cores diferentes. Ou podem parecer simples modificadores de dano. O combate precisa de atingir o seu ponto mais alto. Para isso, cada divindade tem de exigir uma táctica muito diferente. Se o jogo falhar aí, corre o risco de ser só mais um jogo de acção rápida. Um jogo com uma roupagem bonita, mas igual aos outros.

Mundo e história
A história foge por completo dos cenários habituais. Não há aqui fantasia ocidental nem asiática. O foco vai todo para a tradição Iorubá-Candomblé. Isto traz uma riqueza cultural enorme. Os Orixás não são chefes de nível vulgares. Também não são figuras para enfeitar. São entidades complexas. Têm os seus próprios domínios e ritmos. O mundo está em desequilíbrio porque as pessoas esqueceram os mitos. Esta ideia é inteligente. Ela mostra bem a história real de resistência destas culturas.
Grafismo
O estilo visual é pintado à mão e é muito bom. As texturas parecem aguarela. Dão um toque orgânico e artesanal a cada cenário. O melhor ponto técnico é manter a qualidade deste traço desenhado. Isso nota-se mesmo nos momentos de grande confusão no ecrã. A acção nunca deixa de se perceber bem.

Som
A música não usa os sons de orquestra habituais da fantasia moderna. Em vez disso, a música vive da percussão tradicional. Também usa vozes inspiradas nas tradições de África e do Brasil. O som tem peso. Ele dita o ritmo dos combates. Também ajuda a criar o ambiente espiritual que o jogo pede.
Conclusão
Talaka mostra que os jogos independentes na América Latina estão mais maduros. O jogo pega no património cultural e cria mecânicas com sentido. Funciona muito bem para quem quer um roguelite de acção com muita personalidade. É óptimo para quem gosta de jogos como Hades. Não vai ser a melhor escolha para quem prefere a fantasia clássica. Também não serve para quem não tem paciência para a repetição deste género.

