Análises

Análise: Gallipoli

A futilidade da guerra quase nunca é mostrada com o peso que merece nos videojogos. Mas Gallipoli faz questão de nos atirar de cabeça para o moedor de carne. O quarto jogo da série de combates históricos da BlackMill Games foca-se na Frente do Médio Oriente. Coloca o Império Britânico contra o Império Otomano. Não temos aqui os habituais palcos de lama da Frente Ocidental. Aqui combatemos em cenários áridos e penhascos expostos. É uma reconstituição que impressiona pela crueza. Também impressiona pelo respeito histórico. E nunca se esquece de que precisa de ser um jogo divertido.

Jogabilidade

A jogabilidade afasta-se de propósito do ritmo rápido e acrobático dos jogos de tiros modernos. Esqueçam as corridas loucas ou os disparos sem apontar. Aqui, as armas comportam-se com o peso e as limitações da época. Se tentarem disparar uma metralhadora ligeira a partir da anca, o cano vai oscilar de forma descontrolada. Não vão acertar em nada. O jogo exige que ponham a cara na terra. Têm de usar o apoio no chão para dar fogo de cobertura.

A grande novidade é o sistema de supressão e pânico. Esta é a mecânica que merece mais atenção. Disparar na direcção dos inimigos dá pontos de experiência. Mesmo sem lhes acertar, isso causa pânico real nos adversários. Quando somos nós as vítimas desta chuva de balas, o ecrã fica turvo. A visão desfoca e torna-se impossível manter a mira estável. É uma excelente forma de simular o terror das trincheiras. Acrescenta valor tático a cada bala disparada.

As novas classes ajudam a moldar esta dinâmica. O atirador de metralhadora pesada pode construir ninhos de metralhadoras em pontos estratégicos. Isto serve para travar o avanço inimigo. Já o maqueiro funciona como um médico essencial. Ele serve para manter a equipa viva durante as investidas. Existe também o distribuidor de munições e o bombardeiro. Este último está armado com granadas improvisadas feitas de latas de conserva. O limite de jogadores por classe impede que as partidas fiquem cheias de atiradores furtivos. Isto mantém o equilíbrio das forças no terreno.

A poeira levantada pelas explosões de artilharia e morteiros traz outro elemento caótico. Nuvens grossas cobrem o ecrã. Reduzem a visibilidade a quase zero. No meio deste nevoeiro de guerra, o fogo amigável está sempre activo. Não pode ser desligado. É extremamente fácil confundir um aliado com um inimigo no meio da poeira. Também é fácil dar uma baionetada sem querer num companheiro de trincheira.

Mundo e história

O jogo foca-se numa campanha muitas vezes esquecida nos livros de história da Europa. Mas na Austrália e na Nova Zelândia o desastre de Gallipoli tem um peso histórico tremendo. Os mapas mostram bem o abismo entre a tecnologia militar nova e as tácticas antigas. O grande destaque vai para a recriação do desembarque em Anzac Cove. Ver as tropas da Commonwealth a sair de barcos de madeira a remos mostra a brutalidade deste confronto. Estavam completamente expostas ao fogo de metralhadoras pesadas nas praias.

Grafismo

Na parte visual, este é o jogo mais bem conseguido do estúdio. As paisagens áridas e os penhascos do Médio Oriente estão recriados com muito detalhe. O destaque vai para os efeitos de partículas. A poeira e o fumo das explosões acumulam-se de forma realista sobre o campo de batalha. Isto transforma vales abertos em autênticas armadilhas para os olhos.

Som

O ambiente de som é avassalador. O barulho constante das metralhadoras e o silvo das balas a passar perto da cabeça são fundamentais. Servem para activar o sistema de pânico. O estrondo da artilharia distante e os gritos dos soldados nas trincheiras criam uma tensão constante. Isto ajuda a manter a jogabilidade tensa.

Conclusão

Gallipoli brilha quando é jogado da forma como foi feito para ser jogado. A comunidade actual de jogadores percebe isto. Todos se focam nos objectivos e não no rácio de mortes de cada um. O jogo funciona muito bem para quem procura uma experiência de tiro táctica. É um jogo baseado em equipa e com forte lado histórico. A cooperação é obrigatória para vencer. Não vai agradar a quem procura a acção rápida e fácil de um Call of Duty. Mas para quem gosta de realismo histórico, é um jogo obrigatório.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *