Há algo de particularmente apelativo nos jogos que sabem exatamente onde querem ir buscar inspiração. Blades & Battles, publicado pela QUByte Interactive, recupera a tradição dos beat ’em ups de fantasia medieval que marcaram os salões de arcadas, procurando recriar a diversão simples de avançar por cenários repletos de inimigos enquanto distribuímos golpes de espada e utilizamos habilidades especiais. As semelhanças com clássicos como Golden Axe são evidentes, mas esta aventura procura dar uma nova roupagem à fórmula através de uma apresentação tridimensional com uma forte componente visual retro.
Na PlayStation 5, o resultado é uma experiência de ação direta, acessível e relativamente curta. Não há uma grande preocupação em reinventar o género ou introduzir sistemas complexos que transformem radicalmente a fórmula. A prioridade está em colocar o jogador no centro da ação, apresentar-lhe vagas de adversários e deixá-lo resolver os problemas à força dos golpes. É uma abordagem que tem o seu encanto, sobretudo para quem sente saudades dos jogos em que bastava pegar num comando e começar a jogar sem passar demasiado tempo a aprender mecânicas complicadas.
O problema é que a simplicidade que torna Blades & Battles imediatamente acessível também limita a sua capacidade de surpreender. O combate é divertido, a possibilidade de jogar em cooperativo local acrescenta valor e a direção artística tem personalidade, mas a falta de progressão e algumas fragilidades na precisão dos confrontos tornam a experiência menos consistente do que poderia ser.
Blades & Battles é, acima de tudo, uma homenagem aos beat ’em ups de fantasia. Uma homenagem que consegue recuperar parte da diversão dos seus antecessores, embora nem sempre consiga escapar às limitações de uma fórmula que precisava de um pouco mais de ambição.
Jogabilidade
A jogabilidade segue os princípios tradicionais dos beat ’em ups. Controlamos um dos dois heróis disponíveis e percorremos os níveis enquanto enfrentamos grupos de inimigos, alternando entre ataques básicos, combinações de golpes, ataques aéreos e habilidades especiais. A estrutura é simples de compreender e permite entrar rapidamente na ação, sem exigir uma aprendizagem prolongada ou conhecimentos particularmente avançados do género.
Arthur e Lancelot apresentam algumas diferenças que ajudam a distinguir as suas abordagens. Arthur utiliza uma espada imponente, enquanto Lancelot recorre a ataques de natureza elemental, dando às suas habilidades uma identidade visual própria. Ambos dispõem de ataques mais poderosos e capacidades defensivas que podem ser úteis quando o número de adversários começa a aumentar. Existe também uma gestão de vida e mana, obrigando-nos a ter alguma atenção à utilização das habilidades especiais.
Apesar destas diferenças, os dois protagonistas acabam por desempenhar funções relativamente semelhantes durante os combates. A identidade de cada um está presente, mas não chega a traduzir-se numa diversidade mecânica suficientemente significativa para alterar profundamente a experiência. Seria interessante que as particularidades de Arthur e Lancelot fossem exploradas com maior profundidade, oferecendo estratégias distintas ou incentivando a experimentar ambos ao longo da campanha.
O problema surge quando a simplicidade dá lugar à falta de precisão. A movimentação tridimensional num plano de combate bidimensional nem sempre facilita a leitura das distâncias. Por vezes, parece que estamos suficientemente próximos de um adversário para acertar, mas os ataques não produzem o resultado esperado. A deteção dos golpes pode ser inconsistente e as esquivas nem sempre transmitem a confiança necessária para escapar aos ataques inimigos.
Estas fragilidades tornam-se especialmente evidentes quando vários adversários nos rodeiam. Nesses momentos, o posicionamento ganha importância, mas o jogo nem sempre responde com a precisão desejada. O resultado pode ser uma sequência de golpes sofridos que parece menos consequência dos nossos erros e mais uma limitação do próprio sistema de combate.
Os controlos são, pelo menos, fáceis de compreender. O tutorial apresenta os movimentos essenciais e explica as principais capacidades sem sobrecarregar o jogador com informação desnecessária. Correr, esquivar, atacar e utilizar habilidades especiais são ações acessíveis, adequadas a uma experiência que procura recuperar o espírito imediato dos jogos de arcada. No entanto, controlos simples não significam necessariamente controlos precisos, e é precisamente neste ponto que Blades & Battles precisava de algum refinamento adicional.
A ausência de progressão é outra limitação importante. Não existe um sistema significativo de melhorias para desenvolver os protagonistas, nem um conjunto de novas armas ou movimentos que vá expandindo as possibilidades de combate. Aquilo que temos disponível no início acompanha-nos praticamente até ao final. A dificuldade pode proporcionar algum desafio adicional, mas não substitui a sensação de evolução que ajudaria a manter o interesse ao longo da campanha.
Esta decisão acaba por influenciar diretamente a longevidade. Como o jogo não introduz mudanças substanciais na forma como combatemos, a repetição começa a fazer-se sentir mais cedo do que seria desejável. A base é suficientemente divertida para justificar algumas horas de entretenimento, mas também deixa a sensação de que existia espaço para acrescentar novas habilidades, inimigos com comportamentos mais variados ou desafios que exigissem estratégias diferentes.
Felizmente, existe uma característica que ajuda a compensar algumas destas limitações: o cooperativo local. Jogar acompanhado é uma forma particularmente adequada de aproveitar Blades & Battles, uma vez que a ação direta e os confrontos constantes funcionam bem quando partilhados com outra pessoa no sofá. A experiência torna-se mais descontraída e os combates ganham uma dimensão social que combina perfeitamente com as suas inspirações arcade.
No final, a jogabilidade oferece aquilo que promete, mas sem grande margem para evolução. Há diversão nos golpes, nos combos e na utilização das habilidades especiais, embora a precisão irregular e a falta de progressão impeçam o combate de atingir todo o seu potencial.

Mundo e história
A história de Blades & Battles parte de uma premissa familiar, recorrendo à fantasia medieval e à mitologia arturiana para justificar a aventura. Arthur e Lancelot enfrentam uma invasão de monstros depois de Morgana raptar Merlin, dando início a uma jornada destinada a resolver a ameaça e atravessar os diferentes locais que compõem a campanha.
É uma narrativa simples, que não procura atribuir grande profundidade aos acontecimentos ou desenvolver extensivamente as motivações das personagens. A história funciona sobretudo como uma ligação entre os confrontos, oferecendo um objetivo claro para a progressão. Em vez de interromper constantemente a ação com longas sequências narrativas, o jogo prefere manter o foco nos combates e na deslocação entre cenários.
Esta opção faz sentido dentro do género. Os beat ’em ups clássicos raramente precisavam de narrativas elaboradas para justificar a aventura, e Blades & Battles procura recuperar precisamente essa abordagem. A premissa é apresentada sem grandes rodeios e permite que o jogador se concentre naquilo que realmente importa para a experiência: enfrentar os inimigos e continuar a avançar.
O tom descontraído também ajuda a estabelecer a personalidade do jogo. Apesar de recorrer a figuras conhecidas da tradição arturiana, não existe uma preocupação particular em tratar o universo com solenidade. A aventura assume uma abordagem ligeira, por vezes absurda, que combina com a natureza exagerada dos combates e com a presença constante de criaturas fantásticas.
A viagem por diferentes ambientes ajuda a evitar que a aventura se transforme numa sucessão completamente uniforme de confrontos. A mudança de localização permite introduzir alguma variedade visual e reforça a sensação de progressão, mesmo que a estrutura fundamental dos níveis permaneça centrada na ação.
No fundo, o mundo de Blades & Battles existe para servir os combates. Não é uma aventura que procure construir uma mitologia complexa ou desenvolver as suas personagens de forma particularmente elaborada. Para quem procura uma história envolvente, poderá saber a pouco; para quem apenas quer uma desculpa para enfrentar monstros com uma espada na mão, cumpre o essencial.
Grafismo
A direção artística é um dos elementos que mais contribuem para a identidade de Blades & Battles. O jogo combina cenários e modelos tridimensionais com um filtro de píxeis bastante marcado, procurando conciliar uma apresentação moderna com a estética dos jogos retro. É uma escolha visual interessante, que permite distinguir o título de outras propostas de ação e deixa clara a intenção de homenagear os clássicos do género.
A aplicação deste filtro confere aos cenários e às personagens um aspeto deliberadamente pixelizado, sem abandonar completamente a profundidade visual proporcionada pelos ambientes tridimensionais. O resultado procura aproximar duas abordagens diferentes, criando uma apresentação que tanto remete para os jogos de arcada como beneficia de uma construção visual mais contemporânea.
A variedade de ambientes também ajuda a manter o interesse durante a campanha. A passagem por povoações em ruínas, florestas, castelos e outros locais de fantasia permite alterar o enquadramento dos confrontos e evitar que todos os níveis pareçam visualmente idênticos. A presença de diferentes criaturas, incluindo goblins, esqueletos, demónios e outros monstros, contribui igualmente para dar vida aos cenários.
O estilo tem personalidade e demonstra que existe uma intenção artística para além da simples reprodução de uma estética antiga. A combinação de modelos tridimensionais com a pixelização cria uma apresentação própria, adequada ao tipo de experiência que o jogo procura oferecer.
No entanto, esta escolha também tem algumas consequências negativas. A quantidade de píxeis aplicada à imagem pode dificultar a identificação de determinadas personagens e objetos durante os combates mais movimentados. Quando vários inimigos ocupam o ecrã em simultâneo, a clareza visual torna-se particularmente importante, pois precisamos de distinguir rapidamente as ameaças e perceber a posição dos adversários.
É uma limitação que pode interferir com a própria jogabilidade. Num beat ’em up, a leitura do espaço e dos movimentos inimigos é fundamental para evitar golpes e escolher o momento certo para atacar. Se a apresentação visual dificulta essa leitura, a direção artística acaba por prejudicar uma componente essencial da experiência.
Na PlayStation 5, a apresentação tem espaço para respirar num ecrã de maiores dimensões, mas isso não elimina completamente o problema. A identidade visual continua a ser um dos aspetos mais interessantes de Blades & Battles, embora a aplicação do filtro pudesse ter sido equilibrada de forma a preservar melhor a legibilidade durante os confrontos mais intensos.
Apesar destas reservas, o trabalho artístico cumpre o seu propósito. Os diferentes cenários contribuem para a variedade da aventura e o estilo visual ajuda a estabelecer uma ligação imediata às referências que inspiraram o projeto. Não é uma apresentação que procure impressionar pelo realismo ou pela complexidade técnica, mas sim pela forma como combina elementos antigos e modernos.

Som
Os efeitos sonoros também procuram transmitir impacto aos golpes de espada e às habilidades especiais. Num jogo em que passamos grande parte do tempo a combater, este elemento é importante para tornar cada ataque mais satisfatório e reforçar a sensação de contacto durante os confrontos.
Contudo, nem todos os efeitos conseguem manter o mesmo nível de eficácia. Alguns tornam-se repetitivos ao longo da campanha e determinadas escolhas sonoras acabam por chamar a atenção pelas razões erradas, prejudicando ocasionalmente a atmosfera. É um problema particularmente percetível numa experiência relativamente curta, mas construída em torno de uma estrutura de combate que se repete frequentemente.
A componente sonora acaba, por isso, por cumprir o seu papel sem se tornar especialmente memorável. A música e os efeitos encaixam no espírito arcade de Blades & Battles, embora lhes faltasse alguma variedade e polimento para elevar a apresentação a um nível superior.
Conclusão
Blades & Battles é um regresso assumido aos beat ’em ups de fantasia medieval, procurando recuperar a diversão direta de clássicos como Golden Axe através de uma apresentação tridimensional com uma estética retro bastante própria. A proposta é simples, acessível e não esconde as suas intenções: escolher um herói, atravessar cenários fantásticos e derrotar todos os monstros que se atravessam no nosso caminho.
Quando o combate funciona como esperado, há momentos genuinamente divertidos. Os combos, os ataques aéreos e as habilidades especiais oferecem ferramentas suficientes para tornar os confrontos interessantes, enquanto a possibilidade de jogar em cooperativo local representa uma das melhores formas de aproveitar a aventura. A direção artística também merece destaque, conseguindo criar uma identidade visual reconhecível através da combinação de ambientes tridimensionais com um filtro de píxeis marcante.
Infelizmente, as limitações começam a acumular-se à medida que avançamos. A distinção entre Arthur e Lancelot é menos significativa do que poderia ser, o combate nem sempre oferece a precisão desejada e a ausência de um sistema de progressão reduz a sensação de evolução. Não existem melhorias relevantes, novas armas ou movimentos que alterem substancialmente a forma como enfrentamos os inimigos, o que torna a repetição mais evidente.
A componente visual, apesar de interessante, também pode dificultar a leitura dos confrontos mais caóticos, enquanto o som cumpre a sua função sem deixar uma impressão particularmente forte. São limitações que, isoladamente, não seriam necessariamente graves, mas que acabam por reforçar a sensação de que Blades & Battles precisava de mais algum trabalho para aproveitar plenamente as suas boas ideias.
O problema é que recuperar a simplicidade dos clássicos não significa que seja necessário recuperar também todas as suas limitações. Blades & Battles beneficiaria de um combate mais preciso, de maior diferenciação entre personagens e de algumas formas de progressão que incentivassem a continuar a jogar depois das primeiras horas.
No final, a aventura da QUByte Interactive é uma homenagem simpática ao passado, com energia suficiente para proporcionar bons momentos, mas sem profundidade para se tornar particularmente memorável. Para quem sente saudades de enfrentar hordas de monstros com uma espada na mão, sobretudo na companhia de um amigo, existe aqui diversão à espera de ser descoberta. Para todos os outros, a falta de variedade e de evolução poderá tornar a viagem por Camelot demasiado curta e repetitiva.

