Regressar a Serious Sam costuma significar uma coisa: entrar numa arena, ficar rodeado por dezenas de inimigos e disparar até deixar de haver alguma coisa a tentar matar-nos. A série da Croteam construiu a sua identidade com base nesta simplicidade, combinando combates frenéticos, armas exageradas e hordas de adversários que nos obrigam a estar constantemente em movimento. Serious Sam: Shatterverse mantém boa parte dessa fórmula, mas decide experimentar algo diferente. Em vez de uma campanha tradicional, aposta numa estrutura roguelite pensada sobretudo para o jogo cooperativo, com personagens alternativas, melhorias acumuladas durante as partidas e níveis que podem proporcionar experiências bastante diferentes de uma tentativa para outra.
A mudança não é pequena. Desenvolvido por uma equipa associada a Dead by Daylight, Shatterverse afasta-se de algumas das convenções que tornaram a série reconhecível. A passagem para o Unreal Engine 5 altera a sensação dos movimentos e dos disparos, enquanto a estrutura roguelite substitui as campanhas lineares, habitualmente repletas de segredos e pequenas surpresas, por uma sucessão de confrontos em espaços mais simples. Continuamos a encontrar locais familiares, inimigos clássicos e armas conhecidas, mas a maneira como tudo se comporta exige algum tempo de adaptação.
Contudo, há mais em Shatterverse do que aquilo que encontramos no início. À medida que desbloqueamos armas, vantagens e novas possibilidades de personalização, a experiência começa a ganhar outra dimensão. Os poderes dos diferentes Sams complementam-se, as armas tornam-se mais interessantes e os modificadores introduzem condições capazes de transformar completamente um combate que já conhecemos.
É uma evolução que nem todos os jogadores terão paciência para acompanhar, mas que acaba por revelar o verdadeiro propósito deste spin-off. Shatterverse não procura simplesmente reproduzir uma campanha clássica de Serious Sam numa estrutura diferente. Quer transformar o caos dos combates num ciclo de tentativas, combinações e melhorias, com especial destaque para as sessões cooperativas. Quando os seus sistemas começam finalmente a funcionar em conjunto, percebe-se que esta mudança de direção tem mais potencial do que as primeiras horas deixam antever.
Jogabilidade
A base continua a ser a de um first-person shooter. Corremos, esquivamo-nos, apontamos e disparamos contra vagas de inimigos, procurando sobreviver tempo suficiente para chegar ao próximo confronto. A diferença está na estrutura das partidas e na forma como a progressão altera gradualmente as possibilidades disponíveis.
Cada tentativa é composta por nove níveis escolhidos aleatoriamente de entre um conjunto de cenários construídos manualmente. A cada três níveis surge um confronto com um boss, o que significa que uma partida completa obriga a superar vários desafios antes de chegar ao final. Pelo caminho, podemos recolher moedas, encontrar alguns objetos e desbloquear melhorias que alteram a forma como enfrentamos os adversários.
Os cenários não são particularmente complexos. Existem alguns pequenos puzzles, segmentos de plataformas e desvios para encontrar recursos adicionais, mas a maior parte do tempo é dedicada ao combate. Entramos numa área, começam a surgir inimigos em grandes quantidades e temos de os eliminar para avançar. É uma estrutura que compreende bem aquilo que torna Serious Sam divertido, embora a simplicidade dos níveis também contribua para a sensação de repetição nas primeiras horas.
O movimento continua a ser essencial para sobreviver, mas a sensação de controlar a personagem é diferente daquela a que os veteranos estão habituados. A transição para o Unreal Engine 5 trouxe consigo uma abordagem que não reproduz inteiramente o comportamento dos jogos anteriores, e a diferença nota-se especialmente na forma como apontamos e atingimos os alvos.
Algumas armas apresentam uma dispersão considerável dos projéteis, enquanto a possibilidade de apontar com precisão através da mira é limitada. Isto pode tornar certos confrontos menos satisfatórios, sobretudo quando tentamos eliminar um inimigo específico no meio de uma multidão. O problema não é necessariamente a dificuldade, mas a sensação de que o disparo nem sempre responde da forma que esperamos depois de anos a jogar outros títulos da série.
É na progressão que o jogo começa a mostrar o seu verdadeiro potencial. Ao desbloquear novas armas, vantagens e acessórios, as possibilidades de personalização aumentam consideravelmente. As armas podem receber melhorias e efeitos elementais, enquanto os amuletos permitem construir configurações centradas em características específicas. Podemos privilegiar a recuperação de vida, aumentar consideravelmente a probabilidade de causar danos críticos ou procurar obter mais moedas durante as partidas.
Estas escolhas não se limitam a oferecer pequenos aumentos numéricos. Quando conseguimos combinar vantagens que se complementam, a forma como jogamos pode mudar bastante. Uma configuração centrada na sobrevivência permite correr mais riscos, enquanto outra orientada para os danos críticos incentiva uma abordagem mais agressiva. O equipamento começa a funcionar como um conjunto, e não apenas como uma coleção de melhorias escolhidas individualmente.
As diferentes versões de Sam acrescentam outra camada à experiência. Cada personagem possui características próprias e uma habilidade especial, o que ajuda a distinguir as opções disponíveis. Estas capacidades também podem ser melhoradas para beneficiar os restantes jogadores, abrindo espaço para combinações entre membros do grupo. Encontrar uma equipa em que as habilidades e as configurações se complementam pode fazer uma diferença considerável, especialmente quando o nível de dificuldade aumenta.
Esta componente cooperativa é uma das maiores virtudes de Shatterverse. O prazer não está apenas em eliminar inimigos com mais eficácia, mas também em descobrir como as diferentes escolhas dos jogadores podem funcionar em conjunto. Uma habilidade que ajuda um companheiro pode tornar outra configuração mais poderosa, enquanto a distribuição das funções permite enfrentar situações que seriam particularmente complicadas para uma única personagem.
O resultado é uma progressão que cresce em intensidade à medida que avançamos. As armas tornam-se mais poderosas, as vantagens acrescentam novos efeitos e os inimigos representam uma ameaça cada vez maior. Quando tudo encaixa, o combate ganha uma dimensão caótica que combina bem com a identidade de Serious Sam. É preciso reagir depressa, manter a mobilidade e aproveitar as sinergias que construímos ao longo da partida.

Mundo e história
A narrativa não é o principal motivo para jogar Serious Sam: Shatterverse. O protagonismo continua a pertencer aos combates, às armas e às hordas de inimigos que temos de eliminar, mas a ideia de reunir diferentes versões de Sam provenientes de universos alternativos permite brincar com a identidade da série.
Existem variantes como Alien Sam e Cartoony Sam, cada uma com características próprias e habilidades especiais. A premissa dos universos paralelos serve, assim, para justificar a presença de personagens diferentes, mas também para introduzir alguma variedade na forma como abordamos a ação. Em vez de escolhermos sempre a mesma versão do protagonista, podemos experimentar alternativas e descobrir quais combinam melhor com o nosso estilo de jogo.
O humor continua presente através das conversas entre as personagens. As observações e os comentários de Sam mantêm o espírito descontraído associado à série, ajudando a dar alguma personalidade às partidas sem interromper constantemente o ritmo dos combates. Não estamos perante uma aventura particularmente preocupada com o desenvolvimento dramático dos acontecimentos, mas também não seria razoável esperar que a narrativa assumisse o mesmo protagonismo da ação num spin-off desta natureza.
A estrutura roguelite acaba por definir a forma como exploramos este universo. Em vez de acompanhar uma campanha linear, percorremos sucessões de níveis que variam de uma tentativa para outra. A possibilidade de encontrar diferentes combinações de cenários, inimigos e modificadores permite criar situações inesperadas, mesmo quando voltamos a locais que já conhecemos.
Há, contudo, uma perda evidente em comparação com os jogos principais. Os níveis são mais simples e existe uma menor presença daqueles segredos e elementos inesperados que ajudavam a dar personalidade às campanhas anteriores. Explorar os cenários deixa de ter a mesma importância, porque a prioridade passa a ser encontrar os inimigos, sobreviver às vagas e chegar à próxima melhoria.
Esta mudança não destrói a identidade de Serious Sam, mas altera aquilo que esperamos do universo. Shatterverse funciona melhor quando é encarado como uma experiência de ação repetível, sustentada pela progressão e pela variedade das configurações, do que como uma nova aventura tradicional. Quem procura uma campanha recheada de locais memoráveis e pequenos segredos poderá sentir falta dessa componente. Quem prefere entrar numa partida com amigos e descobrir até onde consegue chegar terá razões para continuar a jogar.
Grafismo
A passagem para o Unreal Engine 5 representa uma das alterações mais visíveis em relação aos capítulos anteriores, embora a principal diferença não esteja apenas na apresentação visual. A mudança de tecnologia acompanha uma transformação mais ampla na sensação de jogo, especialmente no movimento e na resposta das armas.
Shatterverse recupera vários elementos reconhecíveis da série. Encontramos cenários associados ao Egito e ao planeta dos Kleers, além de inimigos clássicos como os kamikazes sem cabeça que avançam a gritar e os enormes touros de guerra sirianos. O arsenal também inclui armas familiares, como o revólver e o lança-chamas, ajudando a estabelecer uma ligação com os jogos anteriores.
Esta familiaridade torna a mudança de direção mais evidente. Reconhecemos os inimigos e os locais, mas a forma como nos movimentamos e apontamos não transmite exatamente a mesma sensação. Para quem conhece bem os títulos anteriores, a adaptação pode demorar algum tempo, mesmo que os controlos pareçam semelhantes à primeira vista.
A simplicidade dos níveis também influencia a apresentação geral. Os cenários privilegiam espaços dedicados ao combate, com poucos desvios e uma estrutura que serve sobretudo para organizar as vagas de adversários. A ausência de mais segredos e elementos ambientais diminui a sensação de descoberta que existia nas campanhas tradicionais, tornando alguns locais menos memoráveis.
Em contrapartida, a variedade das partidas acaba por depender menos da construção dos cenários e mais dos modificadores e das configurações escolhidas. Um nível que inicialmente parece demasiado familiar pode tornar-se consideravelmente diferente quando as condições de combate são alteradas. Não é uma solução para todos os problemas de variedade, mas ajuda a dar nova vida a espaços que, de outra forma, poderiam cansar rapidamente.
A apresentação visual cumpre, assim, uma função essencialmente prática: fornecer o palco para confrontos intensos e para a acumulação de inimigos e efeitos. A principal reserva não está tanto na tecnologia utilizada, mas no facto de a mudança para o Unreal Engine 5 ter acompanhado uma sensação de controlo que nem sempre consegue reproduzir a identidade mecânica da série.

Som
O humor continua a fazer parte da identidade de Serious Sam: Shatterverse, sobretudo através dos comentários e das conversas entre as diferentes versões do protagonista. As personagens mantêm a tradição das observações irónicas e das frases provocadoras, acrescentando alguma leveza a uma experiência dominada por confrontos caóticos.
Estas intervenções ajudam a distinguir as personagens e a evitar que o modo cooperativo se resuma a cinco jogadores a disparar contra os mesmos inimigos. A presença de diferentes versões de Sam cria oportunidades para pequenas trocas de comentários que combinam com a natureza descontraída do jogo.
Aquilo que se pode destacar é a continuidade do humor característico da série. Shatterverse não abandona completamente a personalidade de Serious Sam, mesmo quando altera a estrutura dos níveis e a progressão. As frases de efeito ajudam a preservar esse lado irreverente, enquanto os combates continuam a ocupar o centro da experiência.
Conclusão
Serious Sam: Shatterverse começa por parecer uma versão simplificada de uma série que sempre encontrou força na intensidade dos combates e na personalidade dos seus níveis. A mudança para o Unreal Engine 5 altera a sensação dos controlos, o arsenal inicial demora a mostrar variedade e os cenários mais simples fazem sentir a falta dos segredos e das surpresas das campanhas tradicionais.
A experiência muda de figura quando começamos a desbloquear novas armas, vantagens e acessórios. As configurações passam a ter uma identidade própria, os poderes das diferentes versões de Sam permitem construir sinergias e os modificadores introduzem condições que alteram substancialmente a forma como enfrentamos os níveis. A progressão torna-se mais interessante porque não se limita a aumentar os números: permite experimentar estratégias e descobrir combinações que mudam o ritmo dos confrontos.
É também nesta fase que o modo cooperativo revela todo o seu valor. Jogar com amigos, combinar habilidades e tentar superar desafios cada vez mais exigentes oferece uma razão convincente para continuar a regressar. A estrutura roguelite pode levar à repetição de alguns cenários, mas as possibilidades de personalização e os modificadores ajudam a manter as partidas imprevisíveis.
Isso não significa que Shatterverse consiga substituir os jogos principais em todos os aspetos. A simplicidade dos níveis e a menor presença de segredos retiram alguma da personalidade que distinguia as campanhas anteriores. A sensação de controlo também exige adaptação, sobretudo para quem está habituado à resposta característica dos títulos da Croteam. São diferenças que importa aceitar antes de entrar nesta nova interpretação da série.
Serious Sam: Shatterverse não é o regresso tradicional que alguns fãs poderiam desejar, mas também não é uma simples tentativa falhada de modernizar a fórmula. É um spin-off que demora a mostrar as suas melhores qualidades, mas que acaba por oferecer uma experiência cooperativa intensa e com uma longevidade considerável. Para quem estiver disposto a investir nas primeiras horas e apreciar a progressão roguelite, há aqui um shooter capaz de ocupar muitas sessões. Para quem procura sobretudo uma nova campanha clássica de Serious Sam, a mudança poderá ser mais difícil de aceitar.

