Scavenger Survivors pega em várias das ideias que nos últimos anos se tornaram praticamente sinónimo do género roguelite de sobrevivência e tenta acrescentar-lhes uma pequena, mas interessante, camada de estratégia. Desenvolvido pela Bad Goat Gaming, o jogo coloca-nos num mundo onde as máquinas praticamente tomaram conta do planeta e aquilo que resta da civilização encontra-se espalhado por ruínas e zonas perigosas. É neste cenário pós-apocalíptico que assumimos o papel de um recuperador, alguém disposto a entrar em território infestado para recolher recursos e regressar ao veículo blindado RIG com tudo aquilo que conseguiu encontrar.
À primeira vista, Scavenger Survivors parece seguir uma fórmula bastante familiar. Entramos numa zona, enfrentamos vagas sucessivas de inimigos, recolhemos recursos, ganhamos experiência e melhoramos o nosso equipamento enquanto tentamos sobreviver durante o máximo de tempo possível. No entanto, existe uma diferença importante: os recursos não são simplesmente recolhidos e enviados para um inventário. Os objetos têm massa física e precisam de ser transportados efetivamente até ao RIG.
É uma pequena alteração à fórmula que acaba por ter consequências interessantes na forma como encaramos cada partida. Quanto mais nos afastamos do veículo, maiores são as possibilidades de encontrar recursos valiosos, mas também maior é o risco de ficarmos presos no meio das hordas. É precisamente nesta relação entre ganância e sobrevivência que Scavenger Survivors encontra a sua identidade.
Jogabilidade
A base da experiência é bastante simples de compreender. Entramos numa área infestada, eliminamos inimigos, recolhemos recursos, melhoramos a personagem e tentamos regressar ao RIG em segurança. O problema é que, à medida que permanecemos na zona, o número de inimigos aumenta e o perigo torna-se progressivamente maior.
Como seria de esperar num survivors-like, movimentarmo-nos constantemente é essencial. Ficar parado durante demasiado tempo significa rapidamente sermos cercados, obrigando-nos a estar sempre atentos ao posicionamento dos inimigos e às rotas de fuga disponíveis. A ação consegue, por isso, manter um ritmo bastante elevado, especialmente quando começamos a acumular melhorias e armas que permitem enfrentar grupos cada vez maiores.
A progressão durante cada partida também segue uma estrutura familiar. Ao eliminar inimigos acumulamos experiência, subimos de nível e podemos escolher diferentes melhorias para tornar a personagem mais poderosa. A sensação de evolução é importante, já que começamos relativamente vulneráveis e, com as escolhas certas, podemos transformar gradualmente a personagem numa verdadeira máquina de destruição.
Mas é o sistema de recuperação de recursos que mais contribui para diferenciar Scavenger Survivors. Os objetos possuem peso e não desaparecem simplesmente para dentro de um inventário. É necessário transportá-los fisicamente até ao RIG, o que transforma cada expedição numa espécie de jogo de risco. Será que vale a pena continuar a explorar para encontrar mais recursos ou será melhor regressar enquanto ainda temos condições para o fazer?
Esta decisão aparentemente simples cria uma camada estratégica bastante interessante. O jogador está constantemente a avaliar o risco, sobretudo porque uma expedição extremamente lucrativa pode rapidamente transformar-se numa perda total se a personagem for cercada antes de conseguir regressar.
O jogo pode ser desfrutado a solo, mas suporta até quatro jogadores em cooperação, incluindo cooperação local e Steam Remote Play. Não foi possível experimentar esta vertente, mas parece ser uma das componentes com maior potencial. Gerir recursos, enfrentar hordas e tentar coordenar quatro jogadores num cenário cada vez mais caótico parece ser uma combinação particularmente adequada ao conceito.

Mundo e história
Scavenger Survivors não parece apostar numa narrativa complexa, preferindo utilizar o próprio mundo como contexto para justificar a ação. As máquinas praticamente dominaram o planeta e o que resta da humanidade vive num ambiente onde os recursos são suficientemente importantes para justificar incursões em zonas infestadas.
É uma premissa simples, mas adequada ao género. O mundo pós-apocalíptico funciona sobretudo como enquadramento para a experiência de sobrevivência e recuperação. As ruínas, os veículos e os ambientes destruídos ajudam a transmitir a sensação de que estamos a explorar aquilo que sobrou de uma civilização que já não existe da mesma forma.
Mais importante do que contar uma história elaborada é criar uma razão para continuarmos a explorar. E nesse aspeto o conceito de scavenger funciona bem. Cada expedição representa uma oportunidade de regressar com recursos suficientes para melhorar o nosso equipamento e preparar a próxima incursão.
A presença do RIG também é importante neste contexto. O veículo não funciona apenas como um ponto de referência no mapa, mas como uma espécie de porto seguro. É para lá que precisamos de levar aquilo que encontramos e é a sua posição que influencia constantemente as nossas decisões.
Grafismo
Visualmente, Scavenger Survivors é uma agradável surpresa. A direção artística adapta-se bastante bem ao cenário pós-apocalíptico e consegue criar ambientes suficientemente distintos sem perder a identidade visual. As áreas exploradas apresentam ruínas, estruturas destruídas e diferentes elementos que ajudam a transmitir a ideia de um mundo abandonado e perigoso.
Os personagens são facilmente identificáveis e, algo particularmente importante num jogo deste género, conseguem destacar-se suficientemente do ambiente. Quando dezenas de inimigos começam a ocupar o ecrã, a leitura da ação torna-se essencial para conseguirmos perceber para onde devemos fugir.
É precisamente neste ponto que o trabalho técnico merece destaque. Mesmo com enormes quantidades de inimigos presentes simultaneamente, Scavenger Survivors consegue manter uma boa fluidez. Num género em que facilmente podemos ter o ecrã completamente preenchido por inimigos, efeitos e ataques, esta estabilidade é fundamental.
Os controlos beneficiam bastante dessa fluidez. A movimentação é rápida e responsiva, permitindo escapar de situações complicadas sem sentirmos que o jogo está a lutar contra os nossos comandos. Não será provavelmente um dos títulos visualmente mais impressionantes do género, mas existe uma boa coerência entre a direção artística e aquilo que a jogabilidade necessita.

Som
A informação disponível sobre a componente sonora é mais limitada, mas o desenho geral da experiência acompanha aquilo que seria esperado de um jogo de ação e sobrevivência. O importante aqui é que os efeitos e o feedback audiovisual consigam acompanhar o ritmo da ação e ajudar o jogador a perceber aquilo que está a acontecer.
Com inimigos constantemente a aproximarem-se e combates que podem rapidamente transformar-se num caos, o som tem um papel importante na criação de tensão. Cada expedição deve transmitir a sensação de que estamos num território hostil e que permanecer demasiado tempo longe do RIG pode ter consequências.
Ainda assim, esta é uma das áreas em que será interessante perceber o que a versão final do jogo terá para oferecer. Como Scavenger Survivors continua em desenvolvimento, existe espaço para a Bad Goat Gaming aprofundar esta componente e torná-la tão marcante como o sistema de recuperação de recursos.
Conclusão
Scavenger Survivors não tenta reinventar o género dos survivors-like, mas demonstra perceber perfeitamente quais são os elementos que tornam este tipo de experiência tão viciante. Combate rápido, progressão constante, hordas de inimigos e uma crescente sensação de poder estão todos presentes. A diferença está na forma como a recuperação dos recursos é integrada na estrutura das partidas.
A necessidade de transportar fisicamente os objetos até ao RIG acrescenta uma pequena, mas eficaz, camada estratégica. De repente, explorar mais cinco minutos pode significar encontrar recursos extremamente valiosos, mas também pode fazer com que o jogador fique demasiado longe do veículo quando a situação se torna insustentável. É uma mecânica simples, mas que dá mais significado à exploração e às decisões tomadas durante cada partida.
A cooperação para quatro jogadores é outro dos elementos que mais curiosidade desperta. Embora não tenha sido possível experimentar esta vertente, parece existir aqui um enorme potencial para criar momentos caóticos e divertidos entre amigos, especialmente quando cada jogador precisa de equilibrar combate, exploração e transporte de recursos.
Sendo ainda um jogo em desenvolvimento e sem data de lançamento anunciada, será necessário esperar para perceber até onde a Bad Goat Gaming consegue levar estas ideias. Ainda assim, aquilo que já está presente mostra uma base bastante sólida e, sobretudo, uma identidade própria suficiente para evitar que Scavenger Survivors seja apenas mais um clone dentro de um género cada vez mais povoado.
Para quem gosta de roguelites, jogos de sobrevivência e experiências centradas em enfrentar hordas de inimigos enquanto tenta obter recursos suficientes para sobreviver, Scavenger Survivors é definitivamente um título que merece ser acompanhado.

