A inteligência artificial continua a ser um dos temas mais controversos da indústria tecnológica. Entre promessas de revolução, preocupações legítimas e uma enorme discussão em torno da utilização de conteúdos criados por terceiros, não é propriamente fácil encontrar exemplos que demonstrem o potencial desta tecnologia sem levantar outras questões pelo caminho. Brave New Wonders tenta precisamente fazê-lo, mas de uma forma bastante diferente daquela que poderíamos esperar.
Desenvolvido pela City From Naught, Brave New Wonders é um jogo de construção de bases e automação que procura afastar-se das soluções tradicionais do género. Em vez de depender de extensas redes de tapetes transportadores ou de sistemas convencionais de ligação entre edifícios, coloca os jogadores a programar autómatos e estruturas através de instruções escritas em linguagem natural. Na prática, podemos explicar ao jogo aquilo que pretendemos que cada unidade faça, deixando que a inteligência artificial transforme essas instruções em comportamentos concretos.
A ideia é tão invulgar quanto ambiciosa. Estamos perante um jogo que utiliza a IA como parte integrante da experiência, e não como uma ferramenta para produzir os seus conteúdos. Curiosamente, a própria equipa esclarece que não recorreu a inteligência artificial na criação da arte, do código ou da escrita do jogo. A tecnologia está presente na forma como jogamos, enquanto o restante trabalho continua a ser humano.
O resultado é uma experiência de automação bastante diferente, capaz de despertar a curiosidade de quem gosta de construir sistemas complexos, experimentar soluções e aperfeiçoar constantemente aquilo que já funciona. Não é uma proposta para todos, mas há aqui uma ideia com potencial para levar o género numa direção interessante.
Jogabilidade
A principal diferença de Brave New Wonders está na forma como construímos e organizamos as nossas linhas de produção. Em jogos como Factorio ou Satisfactory, estamos habituados a estabelecer ligações físicas entre edifícios, organizar tapetes transportadores e procurar a melhor disposição possível para cada componente. Aqui, essa lógica é substituída por autómatos programáveis, aos quais podemos atribuir tarefas através de comandos escritos.
O funcionamento começa de forma relativamente simples. Para produzir placas metálicas, por exemplo, precisamos de extrair minério, transportá-lo até uma refinaria e, posteriormente, levar o material processado para um armazém. Podemos recorrer a modelos já preparados ou escrever uma instrução tão direta como ordenar a um autómato que extraia minério de uma mina e o entregue na refinaria. Depois de gerado o comportamento, basta guardá-lo para voltar a utilizá-lo sempre que necessário.
A complexidade aumenta à medida que avançamos. Produzir munições para as nossas torres defensivas exige uma cadeia de produção mais elaborada, com extração de carvão, fabrico de pólvora e combinação desse material com placas metálicas. É nesta fase que começamos a perceber a importância de organizar corretamente os nossos comandos. Em vez de programar cada edifício individualmente, podemos criar rotinas baseadas em identificadores e etiquetas, tornando muito mais simples replicar os mesmos comportamentos noutras instalações.
É uma abordagem que exige algum pensamento abstrato, sobretudo quando começamos a construir sistemas com várias dependências. Felizmente, o tutorial faz um excelente trabalho a introduzir os conceitos de forma gradual. Podemos começar com instruções simples e, pouco a pouco, descobrir as possibilidades oferecidas pela programação em linguagem natural. Também não existe apenas uma maneira correta de resolver cada problema, o que deixa bastante espaço para experimentar e encontrar soluções próprias.
A possibilidade de guardar e replicar sistemas através do modo de esquemas também é particularmente útil. Podemos duplicar uma unidade com os seus comportamentos associados ou selecionar vários edifícios e transportadores para reproduzir uma instalação completa noutro local. É uma ferramenta essencial quando começamos a trabalhar em operações de maior dimensão.
Naturalmente, esta liberdade também tem algumas desvantagens. A utilização de linguagem natural pode tornar a resolução de problemas mais complicada quando alguma coisa deixa de funcionar como esperado. O jogo apresenta diagramas que mostram o estado das rotinas e permitem acompanhar a execução dos comandos, mas nem sempre explica o motivo pelo qual determinada unidade ficou bloqueada. Quando uma instrução não produz o resultado pretendido, podemos acabar a alterar partes do sistema sem perceber verdadeiramente onde está a falha.
Durante a experiência descrita na análise original, chegaram mesmo a surgir transportadores que deixaram de funcionar ao regressar aos armazéns. A solução passou por reposicionar estruturas ou recriar as unidades afetadas. Não parece ser um problema constante, mas é particularmente frustrante num jogo em que a automação deve ser precisamente aquilo que nos permite concentrar noutras tarefas.
Também é fácil perder a noção do que está a acontecer quando temos dezenas de unidades a circular pelo mapa. Os transportadores movimentam recursos, os camiões percorrem grandes distâncias e os robôs defensivos patrulham as nossas instalações. Apesar das ferramentas disponíveis, acompanhar todas estas operações pode tornar-se complicado. Por vezes, os tradicionais tapetes transportadores acabam por parecer uma solução bastante mais simples.

Mundo e história
Brave New Wonders não centra a sua experiência numa narrativa tradicional. A progressão está sobretudo associada à expansão da nossa operação, à exploração de novos territórios e à descoberta de formas cada vez mais elaboradas de produzir e transportar recursos.
A campanha desenvolve-se ao longo de quatro mapas de grandes dimensões, cada um com recursos e obstáculos ambientais próprios. A primeira região, situada na América, funciona como uma introdução relativamente acessível às mecânicas. É uma área florestal onde podemos aprender a estabelecer as primeiras cadeias de produção e ganhar confiança com os sistemas de programação.
Esta evolução é importante porque impede que a experiência se transforme numa repetição constante dos mesmos processos. À medida que avançamos, os conhecimentos adquiridos deixam de ser suficientes por si só. Temos de adaptar as rotinas, reorganizar prioridades e encontrar novas formas de contornar os obstáculos impostos pelo ambiente.
A progressão também passa pelo desbloqueio de maravilhas, estruturas que alteram significativamente a maneira como encaramos a expansão. A primeira é um enorme dirigível que permite viajar entre continentes. Mais do que um simples veículo de transporte, funciona como uma fábrica móvel, onde podemos construir estruturas semelhantes às que utilizamos em terra.
Naturalmente, também exige manutenção. É necessário produzir combustível e garantir que este chega ao cais ou aos depósitos do próprio dirigível. Podemos transportar os componentes necessários ou optar por instalar a maquinaria de processamento diretamente a bordo. A partir daí, torna-se possível construir uma rede de transporte global, utilizando vários dirigíveis programados para executar comportamentos específicos.
É uma forma eficaz de manter a progressão interessante. Em vez de simplesmente aumentar a quantidade de recursos disponíveis, Brave New Wonders procura introduzir ferramentas que mudam a escala e a natureza dos problemas que temos de resolver.
Grafismo
Visualmente, Brave New Wonders aposta numa perspetiva superior que permite acompanhar as nossas instalações e observar o funcionamento das diferentes unidades. A apresentação ganha vida com a quantidade de elementos em movimento: autómatos a transportar materiais, camiões a atravessar grandes extensões de terreno e robôs defensivos a proteger as estruturas.
O resultado é particularmente interessante quando começamos a desenvolver operações de maior dimensão. Ver uma rede de produção a funcionar de forma autónoma, com diferentes unidades a executar tarefas coordenadas, transmite uma boa sensação de escala e progresso.
No entanto, esta atividade também revela algumas limitações na clareza visual. Quando temos demasiadas unidades no ecrã, torna-se difícil identificar rapidamente aquilo que procuramos. Mesmo com o jogo pausado através do modo de esquemas, selecionar um edifício ou autómato específico pode ser menos prático do que seria desejável.
Os quatro mapas ajudam a variar a experiência, sobretudo pela forma como os diferentes ambientes condicionam a construção. Da floresta inicial às regiões geladas, passando pelos terrenos africanos e pelas zonas vulcânicas da Ásia, existe uma evolução visual que acompanha o aumento da complexidade.

Som
O que se destaca na experiência é sobretudo a atividade constante das nossas instalações e a necessidade de acompanhar o funcionamento de uma operação que vai crescendo em dimensão e complexidade. A identidade de Brave New Wonders está muito mais ligada à satisfação intelectual de construir sistemas eficientes do que a uma apresentação audiovisual elaborada.
Conclusão
Brave New Wonders é uma proposta bastante original dentro do género da construção de bases e automação. Ao substituir os tradicionais tapetes transportadores por autómatos programáveis através de linguagem natural, a City From Naught consegue criar uma experiência que oferece uma liberdade pouco habitual. Em vez de nos limitar a desenhar ligações físicas entre edifícios, permite-nos pensar nos processos como um conjunto de instruções e condições que podemos adaptar praticamente à nossa vontade.
É uma abordagem que funciona particularmente bem quando começamos a construir rotinas mais elaboradas. Existe uma satisfação especial em descobrir como automatizar uma tarefa, resolver um problema de produção ou replicar uma instalação inteira noutra região. O tutorial ajuda a tornar esta complexidade acessível, mas existe sempre espaço para aprofundar os sistemas e aperfeiçoar as nossas criações.
Nem tudo funciona na perfeição. A interface pode tornar-se confusa quando temos demasiadas unidades em movimento, a análise dos problemas nem sempre é suficientemente clara e os comportamentos ocasionais de autómatos que deixam de executar as suas tarefas podem provocar alguma frustração. É também uma experiência que exige paciência, organização e disponibilidade para pensar em vários processos ao mesmo tempo. Quem prefere a simplicidade visual e funcional dos tapetes transportadores poderá não ficar convencido com esta mudança.
Brave New Wonders é, acima de tudo, um jogo para quem gosta de experimentar, construir e aperfeiçoar. Pode não convencer todos os fãs de automação, mas apresenta uma visão diferente para um género que já parecia bastante familiar. E, por vezes, é precisamente isso que precisamos: alguém disposto a abandonar os velhos tapetes transportadores e a experimentar uma maneira completamente nova de fazer as coisas.

