Análise: A Forma da Água

Guillermo Del Toro é um dos meus realizadores favoritos. Hellboy, Pacific Rim e o Labirinto do Fauno são clássicos já, mesmo que talvez nenhum deles seja um filme perfeito. O olho que Del Toro para criar filmes com uma cinematografia com uma beleza sem rival à volta de histórias que misturam de formas sempre originais o mundo real com fantasia é fenomenal e esses elementos estão presentes melhor que nunca em A Forma da Água, um filme que mistura elementos de A Bela e o Monstro com o Monstro da Lagoa Negra.

Aquilo que salta a vista é a cinematografia. Estamos a falar do filme mais belo do ano, com cenários de um beleza invejável para qualquer filme é um design soberbo. Mais do que criar cenários e uma criatura, Del Toro inspira-se nos Estados Unidos dos anos 50, 60 para contar a sua história é o pano de fundo é além de perfeito para contar a sua história, visualmente soberbo. O cuidado para tornar cada cenário memorável nota-se e mesmo tratando-se de um filme, o espectador consegue ficar acostumado aos vários cenários. A casa de Eliza e Giles, o laboratório, o gabinete de Strickland e o cinema São ambientes que ficamos a conhecer e reconhecer ao fim de um curto filme.

A interpretação é também fenomenal. Sally Hawkings consegue interpretar um papel onde não diz uma única fala com tanto carisma que merece no mínimo uma nomeação para os Óscares. Nunca é fácil conseguir uma boa interpretação com um fato, maquilhagem, próteses e todo a maquinaria necessária para animar a criatura mas Doug Jones consegue fazê-lo com uma subtileza incrível. Além destes dois que desempenham peças centrais da ação, todo o elenco faz um papel fenomenal, mas isso só é possível porque cada um deles tem uma personagem interessante com motivações bastante vincadas.

Não existe nenhuma personagem que está por estar ou porque tem de estar para que algum elemento da história funcione. Todos eles tem a sua pequena história, algo que falta na sua vida. Eliza é literalmente um peixe fora de água. Foi encontrada abandonada perto de água quando era criança e nunca falou, sentindo-se incompleta e mais do que isso sentindo que toda a gente a vê como alguém incompleta, ao contrário da criatura que não percebe que ela não fala e não a vê como alguém incompleta. Tal como Giles também todas as outras personagens tem algo que falta nas suas vidas. Nestas histórias secundárias eu destacaria a de Giles, em especial uma cena que retrata na perfeição os anos 50 e 60 nos Estados Unidos da América.

A Forma da Água não é um filme perfeito, mas todas as críticas que posso fazer são tão insignificantes que pode parecer que apenas quero implicar com o filme. O final do segundo ato é um pouco previsível e um pouco exagerado. Parece até um pouco rápido demais. O filme tinha beneficiado bastante por mais tempo no laboratório entre Eliza e a criatura e parece que o início da relação acaba por ser demasiado rápido. Mas tudo isto são críticas pequenas e insignificantes para um filme que vive de sentimentos e os consegue despertar. Pode-se fazer a critica de que alguns dos filmes de Del Toro são por vezes estilo sobre a substância, mas A Forma da Água é tão diferente disso. O sentimento é a palavra forte e todo o design e o proeza visual apenas serve aqui para realçar esse sentimento.

Tiago Roque

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