Kingdom of Night surge num contexto em que o horror fantástico com raízes nos anos 80 voltou a ganhar força, muito impulsionado pelo sucesso de séries, jogos e campanhas de RPG que beberam diretamente do imaginário de Dungeons & Dragons dessa década. Há aqui ecos claros de Stranger Things, mas também de uma certa tradição de action RPGs retro, duros, sangrentos e pouco complacentes. O jogo assume essa herança sem vergonha, apostando num ambiente sombrio, violento e carregado de nostalgia, onde a sensação de perigo constante é tão importante como o combate em si.
A ação decorre numa única noite de 1987, na pequena cidade de Miami, no Arizona, um local fictício que rapidamente se transforma num pesadelo à medida que forças demoníacas, cultos estranhos e horrores cósmicos começam a emergir das sombras. No papel de John, um habitante comum da cidade, és atirado para este caos após o rapto de um vizinho, dando início a uma descida literal e figurativa à escuridão. Kingdom of Night não tenta reinventar o género, mas procura antes aperfeiçoar uma fórmula conhecida, centrada em combate em tempo real, exploração livre e progressão de personagem bem definida.
Jogabilidade
No seu núcleo, Kingdom of Night é um action RPG clássico, com combate em tempo real fortemente assente em reflexos, gestão de stamina e posicionamento. A perspetiva é isométrica, e a experiência foi claramente pensada para ser jogada com comando, já que o sistema de lock-on para inimigos, ativado por um gatilho, é essencial para manter o controlo em confrontos mais intensos. Jogar com teclado e rato é possível, mas menos intuitivo e menos confortável.
O combate gira em torno de ataques corpo a corpo, esquivas, bloqueios e parries, todos eles dependentes de uma barra de stamina que se esgota rapidamente se fores demasiado agressivo. Isto obriga a um ritmo mais ponderado, onde avançar, recuar e atrair inimigos para posições favoráveis se torna essencial. Para classes mágicas, entram em jogo feitiços de área e ataques à distância, que exigem ainda mais cuidado com o posicionamento e os tempos de conjuração. A seleção de feitiços através de combinações de botões não é imediata, mas com prática torna-se natural.
Os inimigos surgem frequentemente em grupos numerosos, e o jogo gosta de combinar diferentes tipos de ameaças no mesmo encontro. Zombies lentos mas persistentes, criaturas que disparam projéteis teleguiados, fungos venenosos que se dividem ao morrer, cães demoníacos rápidos e agressivos. Isoladamente, muitos destes inimigos não representam grande perigo, mas em conjunto transformam o ecrã num verdadeiro inferno, quase ao estilo bullet hell, onde cada erro é punido com severidade.

Mundo e história
A cidade de Miami é a grande protagonista silenciosa de Kingdom of Night. Ruas vazias, supermercados abandonados, bibliotecas de bairro, bares desertos e esgotos iluminados por fungos bioluminescentes compõem um mapa vasto e surpreendentemente aberto. Após uma introdução relativamente guiada, o jogo dá-te liberdade quase total para explorares o mundo à tua maneira, escolhendo que missões fazer, que zonas visitar e que mistérios investigar.
A narrativa principal é simples: salvar amigos, travar o avanço da escuridão e perceber a origem do mal que tomou conta da cidade. Pelo caminho, surgem dezenas de missões secundárias, algumas ligadas à história central, outras completamente opcionais, focadas em encontrar itens específicos, derrotar bosses escondidos ou localizar personagens desaparecidas. Esta estrutura aberta tem vantagens e desvantagens. Por um lado, promove a exploração e a sensação de descoberta; por outro, pode diluir o foco narrativo, fazendo com que a história principal perca impacto no meio de tantas distrações.
As personagens que encontras pelo mundo cumprem sobretudo funções utilitárias. São arquétipos clássicos: o barman mal-humorado, a velha excêntrica, os atletas e nerds do liceu. Funcionam dentro do tom pretendido, mas raramente evoluem ou surpreendem. O diálogo é funcional, por vezes datado, e não ajuda a criar grandes ligações emocionais. Felizmente, há bastante lore escondido em livros, notas e documentos espalhados pelos cenários, que enriquecem o universo e aprofundam o mistério para quem estiver disposto a procurar.
Grafismo
Visualmente, Kingdom of Night aposta num pixel art vibrante e detalhado, claramente inspirado na era 16-bit, mas com um nível de detalhe moderno. A direção artística é um dos pontos mais fortes do jogo, criando ambientes memoráveis através do uso inteligente de cor e luz. Chamas magenta a iluminar ruas escuras, néons verdes nos esgotos, neblina constante e sombras profundas contribuem para uma atmosfera opressiva e surreal.
O jogo é, no entanto, bastante escuro, o que reforça o tom de horror mas pode dificultar a leitura do cenário em alguns momentos. Os retratos das personagens surgem em formato simples, lembrando sprites de cabeça típicos de RPGs antigos, mas poucos se destacam verdadeiramente. Ainda assim, o conjunto visual mantém uma identidade coesa e consistente do início ao fim, algo essencial num jogo tão dependente da atmosfera.

Som
O design sonoro é contido, mas eficaz. Em muitas áreas, o silêncio domina, interrompido apenas por passos, vento, trovoadas distantes ou sons subtis do ambiente. Esta escolha aumenta a tensão e faz com que cada encontro com inimigos seja precedido por um desconforto palpável. A música entra de forma discreta, mas marcante, apostando em sintetizadores, notas prolongadas e arranjos orquestrais lentos que evocam tanto o terror cósmico como o espírito dos anos 80.
Existem alguns temas musicais particularmente inspirados, que elevam momentos-chave da aventura, embora a banda sonora, no geral, opte mais por criar ambiente do que por se impor. Os efeitos sonoros do combate são satisfatórios, com impactos pesados, sons viscosos e explosões que reforçam a brutalidade dos confrontos.
Conclusão
Kingdom of Night é um jogo profundamente consciente das suas influências e confortável dentro delas. Não tenta ser revolucionário nem esconder as suas inspirações, apostando antes numa combinação sólida de combate exigente, exploração livre e uma estética carregada de nostalgia. O sistema de progressão, baseado em classes, estatísticas como Muscle, Guts e Willpower, e sinergias entre habilidades e equipamentos, oferece profundidade suficiente para manter o interesse ao longo de uma campanha extensa.
Nem tudo funciona na perfeição. A gestão de inventário é confusa, especialmente quando começas a acumular acessórios sem qualquer sistema de ordenação eficaz. O acompanhamento de missões também deixa a desejar, obrigando-te a percorrer listas pouco práticas para perceber o que ainda tens por fazer. A história, embora interessante na premissa, raramente atinge momentos verdadeiramente memoráveis, muito por culpa de personagens pouco desenvolvidas.
Ainda assim, para quem aprecia action RPGs desafiantes, com combate bem afinado e um mundo sombrio para explorar ao seu ritmo, Kingdom of Night tem muito para oferecer. É um jogo que brilha mais quando jogado em sessões curtas, saboreando a exploração e os combates, especialmente em modo cooperativo. Não é um clássico instantâneo, mas é uma viagem sólida e envolvente por uma América alternativa, mergulhada em trevas, que vale a pena enfrentar até ao amanhecer.