Análise: UFOPHILIA

Colocar o chapéu de papel de alumínio, engatar a caravana e apontar o nariz a Roswell é o convite que UFOPHILIA faz desde o primeiro minuto. Desenvolvido pela k148 Game Studio e publicado pela JanduSoft, este título troca fantasmas por extraterrestres e tenta explorar o fascínio duradouro pelas teorias da conspiração, abduções e fenómenos inexplicáveis. A premissa é simples e apelativa: investigar locais suspeitos, recolher provas da existência de alienígenas e, idealmente, regressar inteiro à caravana. À primeira vista, UFOPHILIA parece alinhar-se com uma vaga recente de jogos de investigação paranormal, claramente influenciados por Phasmophobia, mas opta por uma experiência exclusivamente a solo, o que desde logo define o ritmo e o tom de toda a aventura.

Não existe propriamente uma narrativa tradicional, com personagens marcantes ou uma história progressiva. Em vez disso, o jogo aposta num enquadramento funcional: és um investigador solitário, munido de tecnologia improvisada e muita curiosidade, determinado a provar que não estamos sozinhos no universo. Essa ausência de história estruturada pode ser vista como uma limitação, mas também como uma escolha consciente, focada em deixar o jogador criar a sua própria tensão através da observação, dedução e erro constante. UFOPHILIA vive muito mais da atmosfera e do processo do que de um enredo propriamente dito.

Jogabilidade

A jogabilidade de UFOPHILIA assenta num ciclo relativamente simples, mas que rapidamente revela camadas de frustração. Cada missão começa dentro da caravana, em frente a um portátil onde podemos consultar um guia bastante extenso. Este manual explica os fundamentos do jogo, os diferentes tipos de alienígenas, os sinais que cada um manifesta e a função das várias ferramentas disponíveis. É uma leitura quase obrigatória, já que o jogo pouco faz para ensinar através da prática, preferindo despejar informação logo à partida.

Depois de escolher a missão, somos largados num local suspeito, que pode variar entre casas abandonadas, quintas isoladas ou outros cenários rurais típicos do imaginário ufológico. O objectivo inicial passa por procurar indícios de actividade alienígena. Estes sinais podem ser subtis ou óbvios, desde luzes a piscar, interferências eléctricas, ruídos estranhos ou portas que se abrem e fecham sozinhas. Cada alienígena tem um conjunto específico de comportamentos, mas muitos destes sinais acabam por se sobrepor, tornando a identificação menos clara do que seria desejável.

O jogador tem acesso a mais de dez ferramentas diferentes, como leitores EMF, contadores Geiger ou magnetómetros. O problema é que só é possível transportar duas ferramentas de cada vez, o que obriga a regressos constantes à caravana para trocar equipamento. Este vai-e-vem torna-se rapidamente cansativo, sobretudo quando os indícios não são conclusivos. Mesmo depois de várias medições, é comum continuar sem certezas sobre que tipo de alienígena está presente, o que transforma a dedução num exercício de tentativa e erro.

Quando a investigação atinge a chamada Fase 4, o alienígena revela-se finalmente. É neste momento que o jogo exige rapidez e nervos de aço, já que o objectivo passa por tirar fotografias como prova antes de seres raptado. Falhar significa perder a missão e voltar ao início, o que, depois de vários minutos de investigação, sabe sempre a castigo excessivo.

Mundo e história

UFOPHILIA decorre num conjunto de locais que, apesar de não estarem ligados por uma narrativa forte, ajudam a criar uma sensação de variedade. Cada missão decorre num cenário diferente, o que evita que a experiência se torne demasiado repetitiva a curto prazo. O mundo do jogo não conta uma história no sentido clássico, mas sugere um universo onde fenómenos estranhos são recorrentes e onde a presença alienígena se manifesta de formas variadas.

A progressão é feita através de Roswell Points, pontos obtidos ao completar missões com sucesso. Estes pontos desbloqueiam novos locais e investigações mais complexas. Aqui surge outro dos grandes problemas do jogo: se ficares preso numa missão porque não consegues identificar correctamente o alienígena, o progresso fica bloqueado. Não há alternativas, nem formas de contornar esse obstáculo, o que pode afastar jogadores menos pacientes.

Os alienígenas, apesar de não serem muitos, apresentam temperamentos distintos. Alguns toleram melhor a proximidade do jogador, enquanto outros se tornam agressivos rapidamente. Ainda assim, todos partilham uma característica comum: se abusares da tua sorte e passares demasiado tempo a fotografá-los, acabam por te perseguir. E quando isso acontece, a velocidade a que se movem deixa pouca margem para reacção, resultando quase sempre numa abdução inevitável.

Grafismo

Visualmente, UFOPHILIA é competente sem ser impressionante. O jogo corre em Unreal Engine e apresenta ambientes suficientemente detalhados para criar uma atmosfera credível, mas longe de ser algo memorável. As texturas são aceitáveis, a iluminação cumpre o seu papel e os modelos dos cenários fazem o mínimo necessário para sustentar a experiência de investigação.

Felizmente, o desempenho é estável na maior parte do tempo. Apesar da má fama recente do Unreal Engine em termos de optimização, UFOPHILIA corre de forma fluida, com apenas algumas quebras ocasionais de frame rate. Não é nada que comprometa seriamente a jogabilidade, mas nota-se que o jogo poderia beneficiar de algum polimento adicional.

A interface, por outro lado, é por vezes confusa. Alguns menus não são particularmente intuitivos e há pequenas falhas de apresentação, incluindo erros ortográficos dispersos. Nada de grave, mas são detalhes que retiram alguma profissionalização ao conjunto e que, idealmente, seriam corrigidos em futuras actualizações.

Som

Se há um aspecto onde UFOPHILIA realmente se destaca, é no som. O design sonoro é, sem dúvida, o elemento mais eficaz na criação de tensão. Ruídos distantes, rosnados vindos de divisões adjacentes, o ranger do chão ou a sensação de alguém a respirar mesmo ao teu lado conseguem, por momentos, lembrar-te que estás a jogar algo que se quer assustador.

Infelizmente, esses momentos são espaçados. Grande parte do tempo é passada a analisar leituras, a caminhar lentamente pelos cenários e a regressar à caravana para trocar equipamento. Quando o som acerta, acerta mesmo, mas não consegue sustentar um clima de terror constante. Ainda assim, sem este trabalho sonoro competente, UFOPHILIA perderia grande parte da sua identidade e impacto.

Conclusão

UFOPHILIA é um jogo com ideias interessantes, mas uma execução irregular. A proposta de caçar alienígenas, recolher provas fotográficas e sobreviver a encontros de terceiro grau tem potencial, sobretudo para quem gosta de experiências de investigação mais metódicas. O problema é que esse potencial fica muitas vezes soterrado por uma jogabilidade repetitiva, um sistema de progressão punitivo e uma ausência de mecanismos que aliviem a frustração.

Apesar de ser promovido como um jogo de terror, raramente consegue cumprir esse papel de forma consistente. Há sustos ocasionais, muito graças ao excelente trabalho sonoro, mas no geral a experiência aproxima-se mais de um jogo de dedução e paciência do que de um verdadeiro horror. A comparação com Phasmophobia é inevitável, e é difícil não imaginar como um modo multijogador poderia tornar UFOPHILIA mais dinâmico e menos solitário.

No final, UFOPHILIA acaba por ser um título de nicho. Quem tiver paciência para lidar com a sua estrutura rígida e apreciar o processo de investigação pode encontrar aqui alguns momentos interessantes. Para todos os outros, a frustração acumulada pode falar mais alto do que a curiosidade pelos mistérios do universo.

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