A série Hyperdimension Neptunia sempre viveu numa realidade muito própria. Entre referências constantes à indústria dos videojogos, humor meta, personagens exageradas e uma vontade quase incontrolável de abraçar o absurdo, esta é uma franquia que nunca teve medo de parecer ridícula. Ao longo dos anos, vimos RPGs por turnos, hack and slash, shooters e até experiências mais experimentais protagonizadas pelas deusas de Gamindustri. Ainda assim, poucos poderiam prever algo como Neptunia Riders Vs. Dogoos.
A ideia parece saída de uma conversa completamente caótica entre fãs da série: pegar no conceito do modo Battle de Mario Kart, misturar com a recolha frenética de Katamari Damacy e juntar tudo ao universo insano de Neptunia. O resultado é um jogo onde personagens anime aceleram em motas enquanto apanham criaturas gelatinosas chamadas Dogoos, criando atrás de si um tornado de slime colorido. Parece uma piada. E, honestamente, em muitos aspetos é mesmo essa a intenção.
Neptunia Riders Vs. Dogoos não tenta ser um grande exclusivo AAA, nem procura reinventar géneros. Trata-se de um spinoff pequeno, compacto e descaradamente direcionado para fãs da série. A narrativa é praticamente uma desculpa para colocar Uzume e companhia numa dimensão alternativa onde tudo foi dominado por Dogoos e onde as restantes personagens parecem estar sob algum tipo de controlo misterioso. A solução para salvar toda a gente? Andar de mota e recolher mais Dogoos do que os adversários. Naturalmente.
O mais impressionante é que, apesar da premissa completamente absurda, o jogo consegue funcionar. Existe uma energia caótica constante que transforma cada partida numa experiência divertida e surpreendentemente viciante. É impossível levar Neptunia Riders Vs. Dogoos demasiado a sério, mas talvez essa seja precisamente a sua maior força. O jogo sabe exatamente aquilo que é e nunca tenta esconder a sua natureza ridícula.
Ao mesmo tempo, também é impossível ignorar algumas limitações bastante evidentes. O conteúdo disponível é reduzido, as mecânicas nunca evoluem muito além da fórmula base e a ausência de multijogador parece uma oportunidade perdida gigantesca. Ainda assim, durante o pouco tempo que dura, Neptunia Riders Vs. Dogoos consegue proporcionar vários momentos genuinamente divertidos e captar aquele espírito descontraído que tornou esta série tão adorada dentro do seu nicho muito específico.
Jogabilidade
A jogabilidade de Neptunia Riders Vs. Dogoos gira em torno de um conceito extremamente simples: conduzir uma mota por arenas fechadas enquanto se recolhem Dogoos espalhados pelo cenário. Cada Dogoo apanhado junta-se atrás da mota da personagem, formando uma espécie de cauda gelatinosa que cresce progressivamente à medida que a partida avança. O objetivo é atingir primeiro o número necessário de Dogoos para vencer a ronda.
A comparação mais imediata é naturalmente o Battle Mode de Mario Kart, mas existe também uma clara inspiração em Katamari Damacy devido à sensação de acumulação constante e ao caos visual provocado pela quantidade absurda de criaturas atrás do jogador. O conceito é imediatamente acessível e o jogo não perde muito tempo com complicações desnecessárias. Entramos numa arena, aceleramos, recolhemos Dogoos e tentamos impedir que os adversários façam o mesmo.
Naturalmente, existem algumas variantes que ajudam a evitar que tudo se torne demasiado repetitivo demasiado depressa. Certos Dogoos possuem efeitos negativos e podem reduzir a velocidade da mota ou causar outros inconvenientes temporários. Felizmente, também é possível lançar esses Dogoos contra os rivais, transformando desvantagens em armas ofensivas. Além disso, existem inimigos espalhados pelas arenas que podem roubar parte da coleção acumulada, obrigando o jogador a manter-se em constante movimento.
As caixas especiais de Dogoos funcionam quase como power-ups gigantescos. Encontrar uma destas caixas pode alterar completamente o rumo de uma partida, oferecendo um enorme aumento no número de criaturas recolhidas. Isto cria momentos bastante intensos onde todos os participantes tentam desesperadamente alcançar o mesmo objetivo ao mesmo tempo, resultando em colisões, ataques e muito caos visual.
O sistema de condução é relativamente simples, mas existe um foco considerável na utilização do powerslide para realizar curvas apertadas. Infelizmente, esta mecânica nunca parece totalmente refinada. Existe uma certa sensibilidade exagerada nos controlos que faz com que algumas curvas pareçam mais difíceis do que deveriam ser. Não chega ao ponto de estragar a experiência, até porque o jogo adota uma abordagem bastante arcade e permissiva, mas existe sempre aquela sensação de que a condução poderia ser mais satisfatória.
Ainda assim, a simplicidade da fórmula acaba por funcionar a favor do jogo. Neptunia Riders Vs. Dogoos não tenta transformar-se num simulador complexo nem numa experiência competitiva extremamente técnica. O foco está claramente na diversão imediata, no humor visual e na energia constante das partidas. Em poucos minutos qualquer jogador percebe perfeitamente o que deve fazer e rapidamente entra no ritmo caótico da experiência.
Cada arena apresenta pequenas diferenças, incluindo obstáculos específicos, inimigos distintos e layouts variados. Embora não exista uma enorme diversidade de cenários, há esforço suficiente para evitar que tudo pareça uma simples repetição do mesmo mapa. O problema é que o jogo termina precisamente quando começamos a desejar mais variedade mecânica e mais criatividade nas arenas.

Mundo e história
Se existe algo que a série Neptunia domina, é a capacidade de criar histórias completamente absurdas e ainda assim fazê-las funcionar dentro do seu próprio universo. Neptunia Riders Vs. Dogoos continua essa tradição com orgulho absoluto.
A narrativa leva os jogadores para uma dimensão alternativa separada das restantes histórias da série. Neste mundo, Uzume descobre que os Dogoos tomaram conta de praticamente tudo e que várias personagens conhecidas parecem estar sob algum tipo de influência misteriosa. A única solução passa por derrotar os rivais em batalhas motorizadas e recuperar as amigas perdidas pelo caminho.
É uma premissa incrivelmente idiota. E é precisamente isso que lhe dá charme.
O jogo nunca tenta justificar seriamente os acontecimentos nem construir uma narrativa épica cheia de reviravoltas dramáticas. Em vez disso, aposta totalmente no humor autorreferencial, nas piadas absurdas e nas interações caricaturais entre personagens. Para fãs da série, isto encaixa perfeitamente na identidade de Neptunia. Quem acompanha estas personagens há vários anos sabe exatamente o tipo de loucura que pode esperar.
Uzume continua a destacar-se como uma protagonista extremamente energética e carismática. A sua personalidade exagerada encaixa perfeitamente no tom caótico do jogo e ajuda a manter a narrativa constantemente divertida, mesmo quando pouco ou nada faz sentido. As restantes personagens surgem sobretudo como elementos de fanservice narrativo para os fãs, oferecendo diálogos repletos de referências internas e humor típico da franquia.
O problema é que toda esta abordagem torna o jogo praticamente inacessível para novos jogadores. Quem nunca teve contacto com Hyperdimension Neptunia dificilmente encontrará aqui razões para se apaixonar por este universo. Muitas piadas dependem do conhecimento prévio das personagens e do historial da série, enquanto o tom geral pode facilmente parecer apenas estranho ou excessivamente anime para quem não estiver habituado.
Ainda assim, para o público-alvo, Neptunia Riders Vs. Dogoos entrega exatamente aquilo que promete. É leve, divertido, consciente da sua própria estupidez e totalmente confortável com isso. Não existem pretensões narrativas grandiosas nem tentativas forçadas de profundidade emocional. O objetivo é apenas divertir através do absurdo e, nesse aspeto, o jogo cumpre muito bem a sua função.
Grafismo
Visualmente, Neptunia Riders Vs. Dogoos mantém a estética anime colorida característica da série. As personagens continuam expressivas, cheias de personalidade e com designs imediatamente reconhecíveis para qualquer fã de longa data. O estilo artístico aposta em cores vibrantes, efeitos exagerados e uma apresentação claramente inspirada na cultura otaku.
Os modelos das personagens são competentes e as animações conseguem transmitir bastante energia durante as corridas. Ver dezenas de Dogoos acumulados atrás das motas cria momentos visualmente caóticos e bastante engraçados, especialmente quando vários jogadores se cruzam na mesma zona da arena. Existe quase uma sensação de descontrolo permanente que combina perfeitamente com a proposta do jogo.
Os próprios Dogoos continuam adoravelmente estranhos. Estas criaturas gelatinosas sempre foram um dos símbolos mais caricatos da série e aqui assumem naturalmente o papel principal. A enorme variedade de cores e expressões ajuda a tornar o caos visual ainda mais divertido.
No entanto, também é evidente que estamos perante um projeto relativamente pequeno em termos de orçamento. As arenas possuem poucos detalhes mais impressionantes e vários cenários parecem bastante simples visualmente. Existe alguma repetição de elementos e o número limitado de mapas acaba por evidenciar ainda mais essas limitações.
Os efeitos especiais cumprem bem o seu papel, sobretudo durante momentos mais intensos das partidas, mas nunca atingem níveis particularmente impressionantes. O jogo preocupa-se mais em manter tudo fluido e legível do que em apresentar grandes demonstrações técnicas.
Apesar disso, Neptunia Riders Vs. Dogoos raramente deixa de ser visualmente agradável. A direção artística consegue compensar muitas das limitações técnicas graças à identidade forte da série e ao estilo anime muito consistente. Tudo parece alegre, energético e deliberadamente exagerado, exatamente como os fãs esperariam.
O modo fotografia merece também uma pequena menção. Embora não seja propriamente revolucionário, oferece algumas ferramentas interessantes para capturar imagens das personagens e dos momentos mais caóticos das corridas. Considerando a popularidade das personagens junto da comunidade de fãs, faz sentido que os produtores tenham incluído esta funcionalidade.

Som
A componente sonora segue uma abordagem muito semelhante ao resto do jogo: energética, exagerada e completamente anime. A banda sonora apresenta temas rápidos e alegres que encaixam perfeitamente no ritmo acelerado das partidas. Não existem músicas particularmente memoráveis ao ponto de ficarem imediatamente gravadas na cabeça durante dias, mas todas cumprem muito bem o papel de manter a energia elevada.
Os efeitos sonoros ajudam bastante a reforçar a sensação de caos constante. O som dos Dogoos a serem recolhidos, os ataques entre personagens e o ruído das motas criam uma mistura sonora quase absurda, mas perfeitamente adequada ao estilo do jogo.
O voice acting japonês continua a ser um dos pontos fortes da série. As atrizes dão enorme personalidade às personagens e conseguem vender até os diálogos mais ridículos com entusiasmo contagiante. Uzume, em particular, beneficia bastante desta energia vocal exagerada que torna cada cena ainda mais divertida.
As interações entre personagens continuam recheadas daquele humor típico de anime que oscila constantemente entre o absurdo, o meta-humor e referências internas à indústria dos videojogos. Para fãs da franquia, estes diálogos ajudam bastante a reforçar o charme da experiência.
No entanto, também aqui existe a sensação de que o conteúdo disponível é demasiado reduzido. O número limitado de arenas e partidas significa que várias músicas acabam por se repetir frequentemente ao longo das poucas horas de jogo. Felizmente, como a experiência é curta, isso nunca chega ao ponto de se tornar verdadeiramente cansativo.
Conclusão
Neptunia Riders Vs. Dogoos é provavelmente um dos spinoffs mais absurdos que a série Hyperdimension Neptunia já recebeu. A ideia de combinar corridas de motas, recolha de slimes e batalhas caóticas em arenas parece saída diretamente de uma sessão de brainstorming sem qualquer supervisão. E, surpreendentemente, funciona bastante bem.
O jogo consegue capturar uma sensação genuína de diversão arcade simples e imediata. As partidas são rápidas, caóticas e constantemente engraçadas graças ao humor absurdo, ao visual colorido e às mecânicas acessíveis. Mesmo com algumas falhas nos controlos e pouca profundidade mecânica, existe um charme difícil de ignorar em toda esta experiência.
O grande problema é que tudo acaba demasiado depressa. O número reduzido de arenas, a curta duração da campanha e a ausência total de multijogador fazem com que Neptunia Riders Vs. Dogoos pareça mais uma pequena experiência experimental do que um jogo totalmente desenvolvido. Existe claramente potencial para algo muito maior aqui, especialmente no campo competitivo ou cooperativo online.
Também é impossível ignorar o facto de este ser um jogo extremamente dependente da base de fãs existente. Quem já gosta de Neptunia provavelmente encontrará aqui várias horas de diversão leve e descontraída. Quem estiver de fora dificilmente compreenderá o apelo desta loucura toda.
Ainda assim, há mérito numa experiência que abraça completamente a sua identidade sem qualquer vergonha. Neptunia Riders Vs. Dogoos sabe perfeitamente que é estranho, ridículo e incrivelmente nicho. Em vez de tentar agradar a toda a gente, prefere simplesmente divertir o seu público específico com uma mistura de humor absurdo, personagens adoráveis e caos motorizado cheio de slimes coloridos.
Não é um grande passo em frente para a franquia, nem um spinoff particularmente ambicioso. Mas é divertido enquanto dura, e às vezes isso basta.