Há jogos que procuram divertir, outros que querem impressionar e alguns que tentam simplesmente deixar uma marca emocional no jogador. Better Than Dead encaixa claramente nesta última categoria. Este FPS independente aposta numa abordagem desconfortável, crua e quase documental da violência armada, afastando-se do espetáculo cinematográfico habitual do género para criar algo mais próximo de uma experiência angustiante. Não é um jogo que procure glorificar o combate, nem um daqueles títulos que transformam tiroteios em coreografias exageradas repletas de explosões e frases cool. Pelo contrário, Better Than Dead quer colocar o jogador num ambiente opressivo onde cada disparo parece errado, desesperado e assustadoramente plausível.
A premissa é simples, mas pesada. O jogador controla uma jovem mulher que escapa de uma rede criminosa ligada à exploração sexual e tráfico humano. Após conseguir uma arma, inicia uma jornada de vingança contra os responsáveis por essa organização, invadindo apartamentos degradados, clubes obscuros e hotéis decadentes para eliminar os criminosos e salvar outras vítimas. Toda esta experiência é apresentada através da perspetiva de uma bodycam, como se estivéssemos a assistir a vídeos reais gravados durante os confrontos.
Este conceito não é totalmente novo dentro do universo dos videojogos, mas Better Than Dead leva-o para um território particularmente perturbador. O jogo tenta imitar a sensação de vídeos violentos encontrados na internet, utilizando filtros visuais, censura parcial e uma apresentação extremamente realista para criar desconforto constante. O resultado é um FPS que dificilmente será confundido com qualquer outro lançamento recente.
Apesar da curta duração e de alguns problemas técnicos evidentes, Better Than Dead consegue destacar-se precisamente porque rejeita muitas das convenções modernas do género. Não há árvores de habilidades, loot, crafting, dezenas de armas ou sistemas RPG complexos. Existe apenas uma pistola, corredores apertados, inimigos perigosos e uma sensação constante de vulnerabilidade.
Jogabilidade
A estrutura de Better Than Dead é minimalista ao extremo. Cada nível coloca o jogador num cenário fechado com um objetivo simples: eliminar um alvo específico ou salvar uma mulher presa naquela operação criminosa. Não existem mapas detalhados, marcadores de objetivos ou qualquer HUD tradicional. Nem sequer há mira no centro do ecrã. Tudo foi desenhado para aumentar a imersão e fazer com que o jogador se sinta verdadeiramente perdido dentro daqueles ambientes degradados.
O combate é claramente o centro da experiência e também o elemento mais impressionante do jogo. A arma principal, uma simples pistola, comporta-se de forma muito diferente do que estamos habituados a ver em shooters convencionais. Disparar é difícil, a precisão é inconsistente e o recuo faz com que cada confronto pareça caótico. Acertar num alvo a alguma distância exige calma e posicionamento, mas a própria tensão do jogo raramente permite ao jogador manter a serenidade durante muito tempo.
Os tiroteios são rápidos, violentos e desorganizados. Muitas vezes tudo termina em poucos segundos com disparos frenéticos de ambos os lados. Outras vezes, o combate transforma-se numa troca nervosa de tiros falhados enquanto todos tentam encontrar cobertura. É precisamente aqui que Better Than Dead encontra a sua identidade. Ao contrário da maioria dos FPS modernos, onde os protagonistas parecem super soldados capazes de limpar salas inteiras sem esforço, aqui o jogador sente-se vulnerável a cada esquina.
O facto de um único tiro poder matar praticamente qualquer inimigo — incluindo o próprio jogador — altera completamente a dinâmica do combate. Cada corredor torna-se ameaçador, cada porta pode esconder perigo e cada movimento precisa de ser ponderado. Há momentos em que simplesmente entrar numa divisão já provoca ansiedade porque nunca sabemos se existe alguém escondido pronto para disparar.
Outro detalhe interessante é a forma como os inimigos reagem aos disparos. Alguns caem imediatamente, enquanto outros ficam feridos e tentam levantar-se novamente. Isso obriga o jogador a confirmar constantemente se um adversário foi realmente neutralizado. O resultado é um ritmo desconfortável onde até corpos no chão continuam a parecer ameaçadores.
A munição infinita elimina qualquer preocupação com gestão de recursos, mas também contribui para o lado brutal da experiência. Como a precisão é instável, disparar várias vezes contra cada inimigo acaba por ser a abordagem mais segura. Não existe elegância aqui. Apenas sobrevivência.
Infelizmente, a experiência não está livre de problemas. A inteligência artificial apresenta comportamentos erráticos em várias ocasiões. Alguns inimigos ficam presos no cenário, outros reagem de forma estranha aos disparos e existem situações em que o jogador pode ficar bloqueado em cantos ou acertar involuntariamente em paredes próximas devido à física da arma.
A presença de civis também cria momentos frustrantes. O jogo penaliza severamente disparos contra inocentes, mas por vezes essas personagens tomam decisões absurdas durante os confrontos, correndo na direção do perigo e acabando atingidas acidentalmente. Estas situações obrigam frequentemente a reiniciar secções inteiras.
Ainda assim, apesar destas falhas, Better Than Dead consegue manter uma tensão constante que poucos shooters modernos conseguem replicar.

Mundo e história
A narrativa de Better Than Dead é deliberadamente simples e direta. O jogo não perde tempo com diálogos longos, cinemáticas elaboradas ou construção profunda de personagens. Tudo é apresentado de forma seca e quase impessoal, reforçando a sensação de estarmos perante fragmentos de acontecimentos reais encontrados algures na internet.
A protagonista nunca se transforma numa heroína tradicional. Não há discursos épicos, frases memoráveis ou momentos de triunfo glorioso. A sua missão de vingança é retratada como algo brutal, desesperado e emocionalmente destrutivo. O jogo evita romantizar a violência e isso acaba por ser uma das suas maiores forças narrativas.
Os cenários ajudam bastante a construir esta atmosfera. Apartamentos degradados, corredores sujos, clubes decadentes e hotéis baratos criam um retrato sombrio de um submundo criminoso miserável e deprimente. Tudo parece abandonado, decadente e sufocante. Não existe qualquer glamour naquele universo.
A utilização da perspetiva bodycam reforça ainda mais esta abordagem. O jogo apresenta os acontecimentos como se fossem vídeos reais partilhados online, com rostos desfocados, censura visual e efeitos que simulam gravações digitais comprimidas e editadas. É uma decisão estética muito forte que transforma toda a experiência em algo desconfortavelmente próximo da realidade.
Essa escolha visual e narrativa pode afastar alguns jogadores. Better Than Dead não é um jogo agradável nem pretende ser. O objetivo parece ser precisamente provocar desconforto e obrigar o jogador a enfrentar uma representação mais crua da violência armada. Em vez de criar momentos espetaculares, o jogo quer transmitir medo, ansiedade e sensação de perigo constante.
Curiosamente, a curta duração da campanha acaba por funcionar a favor da experiência. O jogo pode ser terminado em cerca de uma hora, mas provavelmente seria difícil sustentar esta intensidade durante muito mais tempo sem se tornar emocionalmente exaustivo ou repetitivo.
Grafismo
Visualmente, Better Than Dead aposta num realismo agressivo e extremamente eficaz. A utilização da bodycam como perspetiva principal não serve apenas como gimmick visual. Todo o jogo foi construído em torno dessa ideia, desde os movimentos da câmara até aos filtros aplicados na imagem.
A câmara abana constantemente, o campo de visão apresenta um ligeiro efeito fisheye e os movimentos do protagonista transmitem peso e instabilidade. O resultado aproxima-se surpreendentemente de gravações reais feitas com câmaras corporais. Em certos momentos, especialmente durante tiroteios mais intensos, o jogo consegue criar imagens perturbadoramente convincentes.
Os cenários são detalhados dentro da sua simplicidade. Não existe grande variedade de ambientes, mas os espaços disponíveis são suficientemente credíveis para manter a imersão. As paredes degradadas, iluminação pobre e decoração decadente ajudam a reforçar o ambiente opressivo.
Os efeitos sonoros e visuais dos disparos também merecem destaque pela brutalidade. Os impactos parecem violentos, os inimigos reagem de forma pesada aos tiros e a ausência de exageros cinematográficos torna tudo mais credível.
No entanto, o realismo visual traz alguns problemas técnicos. A oscilação constante da câmara pode provocar desconforto ou motion sickness em alguns jogadores. Além disso, o desempenho nem sempre é estável. Existem relatos de quebras de performance e necessidade de reduzir definições gráficas para garantir fluidez adequada.
Também surgem alguns bugs ocasionais relacionados com colisões e posicionamento da arma, quebrando ligeiramente a ilusão de realismo em determinados momentos. Ainda assim, para um projeto relativamente pequeno, Better Than Dead impressiona bastante pela consistência da sua identidade visual.

Som
O trabalho sonoro é absolutamente essencial para o impacto de Better Than Dead. Os disparos são ensurdecedores, secos e assustadoramente realistas. Cada tiro parece ecoar pelos corredores apertados, aumentando a sensação de perigo imediato.
O jogo utiliza o silêncio de forma muito inteligente. Não existe música constante a acompanhar a ação. Grande parte do tempo ouvimos apenas passos, respiração, vozes distantes e ruídos ambientais subtis. Isso faz com que cada confronto pareça ainda mais abrupto e violento.
Os efeitos sonoros ajudam também a reforçar o caos dos combates. Os disparos falhados contra paredes, o som de balas a atingir objetos e os movimentos nervosos dos inimigos criam uma atmosfera extremamente tensa.
A ausência de banda sonora tradicional acaba por beneficiar bastante a experiência. Música épica ou ritmada provavelmente destruiria a sensação de realismo desconfortável que o jogo tenta criar. Aqui, o silêncio é tão importante quanto o som.
Mesmo sem grande variedade sonora, Better Than Dead utiliza áudio de forma muito eficaz para manter o jogador constantemente nervoso e alerta.
Conclusão
Better Than Dead não é um FPS convencional e também não tenta agradar a toda a gente. Trata-se de uma experiência curta, desconfortável e brutal que procura recriar a sensação caótica e aterradora de um confronto armado real. O resultado é um jogo intenso que consegue destacar-se num género saturado de fórmulas repetidas.
Apesar dos problemas técnicos, inteligência artificial inconsistente e algumas decisões frustrantes, existe aqui uma identidade muito forte. O minimalismo da jogabilidade, combinado com a apresentação bodycam e o realismo cru dos tiroteios, cria momentos genuinamente tensos que poucos shooters conseguem oferecer.
Este não é um jogo sobre poder. Não faz o jogador sentir-se invencível ou heroico. Pelo contrário, Better Than Dead transforma cada disparo numa decisão desesperada e cada corredor numa potencial ameaça. É uma experiência que prefere provocar ansiedade em vez de adrenalina triunfante.
A curta duração poderá desapontar alguns jogadores, mas talvez seja precisamente essa brevidade que permite ao jogo manter o seu impacto emocional. Better Than Dead deixa marca porque se recusa a suavizar a violência ou transformá-la em entretenimento estilizado.
Não será o melhor FPS do ano nem o mais refinado tecnicamente, mas é certamente um dos mais memoráveis. Um jogo que consegue permanecer na mente muito depois dos créditos finais, precisamente porque escolhe mostrar a violência de uma forma raramente explorada nos videojogos modernos.