Desde o seu lançamento, Astroneer conquistou um lugar especial entre os jogos de sobrevivência graças à sua abordagem relaxada, ao foco na exploração e à construção de bases num universo colorido e cheio de personalidade. Era um jogo que incentivava a criatividade, a descoberta e a cooperação sem recorrer constantemente à pressão ou ao combate. Por isso, o anúncio de STARSEEKER: Astroneer Expeditions levantou uma questão inevitável: como seria possível dar continuidade a essa fórmula sem simplesmente repetir a experiência original?
A resposta da System Era é surpreendente. Em vez de criar uma sequela tradicional, o estúdio decidiu seguir uma direção completamente diferente, transformando o universo de Astroneer num jogo cooperativo de extração PvE. É uma mudança ousada que altera praticamente toda a estrutura da experiência, mantendo, ainda assim, a identidade visual, sonora e o espírito otimista que sempre caracterizaram a série.
Embora ainda se encontre numa fase de desenvolvimento, STARSEEKER: Astroneer Expeditions já demonstra uma identidade muito própria. Continua a existir exploração, recolha de recursos e progressão através de tecnologia, mas tudo isso é agora enquadrado por missões de duração limitada, gestão de risco e a necessidade constante de regressar em segurança antes que seja tarde demais. O resultado é um jogo que pode surpreender tanto os fãs da obra original como aqueles que procuram uma abordagem diferente ao género de extração.
Jogabilidade
A maior mudança introduzida por STARSEEKER: Astroneer Expeditions encontra-se na estrutura das partidas. Em vez de passarmos horas a desenvolver uma base permanente num planeta, toda a ação gira em torno de expedições lançadas a partir de uma estação espacial que funciona como centro de operações.
Antes de iniciar uma missão, os jogadores escolhem os objetivos que pretendem cumprir e embarcam rumo ao planeta correspondente. As missões podem ser realizadas a solo, mas todo o design parece claramente pensado para equipas de até quatro jogadores, incentivando a cooperação constante.
Ao chegar à superfície, o objetivo passa por explorar, recolher recursos, localizar caches da EXO, completar desafios e regressar vivo antes que o oxigénio termine. É precisamente aqui que surge outra das alterações mais importantes relativamente ao Astroneer original.
Os icónicos cabos de oxigénio desapareceram completamente. Em vez de criar uma rede de tethers para garantir sobrevivência ilimitada, cada expedição possui agora um limite temporal de cerca de trinta minutos. Esse relógio transforma completamente o ritmo da exploração. Já não existe espaço para avançar lentamente ou construir uma infraestrutura permanente. Cada decisão implica gerir tempo, distância e risco.
Esta alteração torna cada expedição bastante mais tensa. É necessário planear cuidadosamente o percurso, assinalar recursos importantes, evitar desperdícios e garantir que existe tempo suficiente para regressar até à nave de extração. Caso contrário, perde-se praticamente tudo o que foi recolhido durante a missão.
O sistema de risco e recompensa torna-se ainda mais evidente através do inventário. A mochila possui espaço para doze objetos, obrigando o jogador a decidir constantemente o que vale realmente a pena transportar. Quanto mais tempo se permanece no planeta, maior será a quantidade de recursos acumulados, mas também maior o risco de perder tudo numa emboscada ou simplesmente por falta de oxigénio.
Outra novidade significativa é a presença de combate. Embora continue relativamente simples, representa uma mudança importante na filosofia da série. Os inimigos mostram-se bastante agressivos e podem eliminar rapidamente um explorador desprevenido. Durante as sessões a solo, esta agressividade torna-se particularmente desafiante, sendo evidente que o equilíbrio atual favorece claramente a experiência cooperativa.
A cooperação acaba por assumir um papel central em praticamente todas as mecânicas. Os recursos são partilhados entre os membros da equipa, os jogadores podem ajudar-se mutuamente durante o combate e a coordenação torna-se essencial para maximizar os ganhos de cada expedição. Ainda assim, como acontece em qualquer experiência multijogador, tudo dependerá também da qualidade da comunicação entre os participantes.
Além da exploração livre, existem ainda diversas atividades secundárias conhecidas como Field Ops. Estas pequenas missões introduzem objetivos variados, como sedar criaturas, recolher determinados materiais dentro de um limite temporal ou cumprir desafios específicos espalhados pelo mapa. Esta variedade ajuda a impedir que todas as expedições pareçam iguais.
Também as caches da EXO recebem um tratamento mais elaborado. Algumas exigem simplesmente serem encontradas, enquanto outras escondem pequenos puzzles que obrigam a resolver mecanismos antes de aceder às recompensas. São elementos que tornam a exploração mais interessante e recompensadora.
A mobilidade foi igualmente expandida. Existe agora um sistema de escalada inspirado em jogos modernos de exploração em mundo aberto, permitindo alcançar zonas anteriormente inacessíveis. A possibilidade de nadar e descobrir tesouros subaquáticos acrescenta outra camada de exploração ao conjunto.

Mundo e história
Apesar de STARSEEKER alterar profundamente a estrutura da jogabilidade, continua a preservar o charme do universo de Astroneer. O jogo mantém aquele ambiente otimista e descontraído, onde a curiosidade científica continua a ser o principal motor da aventura.
A estação espacial serve como ponto de encontro para dezenas de jogadores em simultâneo, criando uma sensação constante de comunidade viva. Enquanto alguns regressam das suas missões carregados de recursos, outros preparam novas expedições ou interagem com as várias personagens presentes na base.
Estas personagens funcionam como distribuidores de missões, comerciantes e responsáveis pela progressão do jogador. À medida que vamos concluindo objetivos, desbloqueamos novos equipamentos, projetos de fabrico e melhorias que aumentam significativamente as nossas capacidades durante futuras expedições.
Existe igualmente uma sensação permanente de progresso coletivo. Para além dos objetivos individuais, a comunidade trabalha em conjunto para reunir Task Tokens suficientes para completar desafios globais. Esta mecânica incentiva todos os participantes a contribuírem para um esforço comum, reforçando a ideia de que fazem parte de uma organização espacial muito maior.
Pequenos detalhes ajudam igualmente a tornar o mundo mais vivo. O próprio centro de operações destaca jogadores que tiveram desempenhos excecionais durante as expedições, dando reconhecimento público aos seus feitos e contribuindo para criar uma atmosfera dinâmica.
Embora a construção livre de bases tenha desaparecido, o sistema de progressão através de tecnologia e equipamento mantém viva uma parte importante da identidade da série. Cada expedição bem-sucedida permite regressar com novos recursos que alimentam o desenvolvimento de equipamento cada vez mais sofisticado.
Grafismo
Visualmente, STARSEEKER mantém praticamente intacta a identidade artística que tornou Astroneer imediatamente reconhecível. O estilo low poly continua extremamente apelativo, recorrendo a cores vibrantes, iluminação suave e ambientes repletos de personalidade.
Cada planeta parece cuidadosamente desenhado para incentivar a exploração. As formações rochosas, a vegetação alienígena e os diferentes biomas apresentam variedade suficiente para despertar constantemente a curiosidade do jogador.
A direção artística continua a privilegiar formas simples, mas extremamente expressivas. Não procura impressionar através de realismo gráfico, preferindo apostar numa identidade visual própria que envelhece bastante melhor do que muitas produções tecnologicamente mais ambiciosas.
As animações mantêm igualmente aquele carácter quase brinquedo que sempre definiu Astroneer. Recolher recursos, ligar equipamentos ou manipular objetos continua a transmitir uma sensação física bastante satisfatória, graças às pequenas animações e aos efeitos visuais cuidadosamente trabalhados.
A interface parece igualmente adaptada à nova estrutura do jogo, fornecendo rapidamente toda a informação relevante sem sobrecarregar o ecrã. O cronómetro de oxigénio assume naturalmente um papel de destaque, reforçando constantemente a tensão durante cada expedição.
Mesmo com a introdução de combate, inimigos mais agressivos e maior intensidade, STARSEEKER nunca perde o seu aspeto acolhedor. Continua a ser um universo colorido e simpático, apenas sujeito a desafios bastante mais exigentes do que anteriormente.

Som
O trabalho realizado na componente sonora parece manter o elevado nível do jogo original. Os efeitos associados à recolha de recursos continuam extremamente satisfatórios, com os característicos sons mecânicos e pequenos estalidos que acompanham praticamente todas as interações.
Estes detalhes ajudam a tornar cada ação mais agradável, criando uma forte ligação entre aquilo que o jogador faz e aquilo que ouve. É um aspeto subtil, mas que sempre foi uma das maiores forças de Astroneer.
A banda sonora continua discreta, acompanhando a exploração sem nunca dominar a experiência. Nos momentos de maior tensão, especialmente quando o tempo começa a escassear ou surgem inimigos mais perigosos, a música contribui para aumentar a pressão sem perder o tom contemplativo que caracteriza este universo.
Também os ambientes parecem suficientemente distintos para transmitir personalidade própria a cada planeta, reforçando a sensação de descoberta constante.
Conclusão
STARSEEKER: Astroneer Expeditions não é Astroneer 2, e talvez seja precisamente essa a decisão mais inteligente tomada pela System Era. Em vez de repetir uma fórmula que já funcionava, o estúdio preferiu explorar uma abordagem completamente diferente, transportando o ADN da série para um género onde poucos esperariam encontrá-lo.
A combinação entre exploração, sobrevivência, extração de recursos e progressão cooperativa revela potencial para oferecer dezenas de horas de jogo, sobretudo a quem privilegia experiências multijogador. Ainda existem aspetos que necessitam de afinação, particularmente o equilíbrio da dificuldade para jogadores a solo, mas as bases parecem bastante promissoras.
Os fãs do primeiro Astroneer precisarão inevitavelmente de algum tempo para aceitar a ausência da construção livre de bases e o foco muito maior na gestão de risco. No entanto, depois de ultrapassada essa expectativa inicial, torna-se evidente que STARSEEKER procura construir a sua própria identidade em vez de viver à sombra do original.
A identidade visual permanece intacta, a componente sonora continua excelente e o espírito otimista da série continua presente em praticamente todos os detalhes. Apenas a estrutura da aventura mudou radicalmente.
Se a versão final conseguir aprofundar as mecânicas cooperativas, equilibrar o combate e expandir a variedade de missões e planetas, STARSEEKER: Astroneer Expeditions poderá tornar-se uma evolução inesperada, mas extremamente interessante, de um dos universos mais carismáticos dos jogos de exploração espacial.