O género dos RPG táticos por turnos tem conquistado um público cada vez mais dedicado ao longo dos últimos anos. Entre títulos que apostam em campanhas épicas e outros que privilegiam a liberdade de escolha, existe sempre espaço para projetos que procuram encontrar um equilíbrio entre acessibilidade e profundidade estratégica. Veterum enquadra-se precisamente nessa categoria. Atualmente em Acesso Antecipado, este RPG de fantasia sombria apresenta uma proposta claramente inspirada por clássicos modernos como Battle Brothers, mas tenta seguir o seu próprio caminho através de uma abordagem menos punitiva e mais aberta à experimentação.
Apesar de ainda não estar concluído, Veterum já demonstra uma identidade bastante definida. O jogo coloca-nos no comando da Ordem dos Guardiões do Portão, uma organização que luta pela sobrevivência num mundo ameaçado por uma iminente catástrofe. Embora a narrativa ainda não seja o principal foco da experiência, existe uma base sólida sobre a qual os criadores parecem estar a construir algo mais ambicioso para o futuro.
O que torna Veterum particularmente interessante é a forma como combina exploração livre, gestão de grupo e combate tático. Em vez de nos conduzir por uma história linear, o jogo aposta num modelo sandbox que permite ao jogador criar a sua própria aventura. Cada campanha desenvolve-se de forma diferente, graças à geração procedural dos mapas, missões e eventos. O resultado é uma experiência que privilegia a adaptação constante e a tomada de decisões estratégicas.
Mesmo em Acesso Antecipado, é evidente que os sistemas fundamentais já se encontram bastante desenvolvidos. Há conteúdo suficiente para dezenas de horas de jogo, e a sensação geral é a de um projeto que já oferece uma experiência satisfatória por si só, sem depender exclusivamente das promessas de futuras atualizações.
Jogabilidade
A jogabilidade representa, sem dúvida, o maior trunfo de Veterum. O ciclo principal da experiência é simultaneamente simples e viciante. Exploramos um vasto mapa, visitamos povoações, aceitamos contratos, enfrentamos ameaças e procuramos recursos para fortalecer o nosso grupo. Cada decisão tem consequências, especialmente quando os recursos são limitados e os perigos surgem de forma inesperada.
A estrutura sandbox funciona particularmente bem porque incentiva a criação de histórias emergentes. Em vez de seguir uma sequência rígida de missões, somos constantemente confrontados com escolhas que moldam o rumo da campanha. Devemos ajudar uma aldeia ameaçada ou procurar equipamento melhor numa cidade distante? Vale a pena enfrentar um inimigo perigoso por uma recompensa valiosa? Estas pequenas decisões acumulam-se e ajudam a criar uma sensação genuína de aventura.
A geração procedural desempenha aqui um papel importante. Os mapas mudam entre campanhas, assim como a distribuição dos recursos, das missões e dos encontros. Embora seja impossível garantir que todas as partidas sejam completamente diferentes, existe variedade suficiente para tornar cada campanha imprevisível. Esta abordagem contribui significativamente para a longevidade do jogo.
A gestão do grupo também merece destaque. À medida que recrutamos novos membros para a nossa companhia mercenária, começamos a desenvolver um forte sentimento de ligação às personagens. Cada guerreiro representa um investimento de tempo e recursos, tornando cada vitória mais gratificante e cada derrota mais dolorosa.
O sistema de progressão oferece espaço para especialização e personalização. Embora não procure reinventar o género, apresenta opções suficientes para permitir diferentes abordagens estratégicas. Podemos construir combatentes resistentes para a linha da frente, especialistas em combate à distância ou personagens focadas em apoio e controlo do campo de batalha.
Toda esta componente de gestão encaixa naturalmente na exploração do mundo. Em nenhum momento parece que estamos a alternar entre sistemas desconexos. Pelo contrário, cada elemento alimenta o seguinte, criando um fluxo constante de objetivos e recompensas.

Mundo e história
Neste momento do desenvolvimento, a narrativa ainda não assume um papel central em Veterum. Os criadores já confirmaram que uma campanha mais elaborada está prevista para versões futuras, mas a experiência atual privilegia claramente a liberdade do jogador em detrimento de uma história estruturada.
Ainda assim, o universo apresentado revela potencial considerável. O cenário de fantasia sombria transmite uma atmosfera de decadência e incerteza. O mundo encontra-se à beira do apocalipse, e essa sensação de ameaça constante está presente em praticamente todos os aspetos da experiência.
A Ordem dos Guardiões do Portão serve como ponto de partida para as nossas aventuras, mas a verdadeira riqueza do mundo surge através das diversas raças que compõem a nossa companhia. Humanos, anões, elfos e homens selvagens coexistem num ambiente hostil, criando oportunidades para diferentes estilos de jogo e interpretações do universo.
Embora a falta de uma narrativa forte possa ser vista como uma limitação para alguns jogadores, existe também uma vantagem nesta abordagem. Ao deixar espaço para a imaginação, Veterum permite que cada campanha desenvolva a sua própria história. As derrotas inesperadas, os recrutamentos improváveis e as vitórias conquistadas à custa de enormes sacrifícios tornam-se elementos centrais da experiência.
O foco está claramente na criação de narrativas emergentes. Não existem grandes sequências cinematográficas nem diálogos extensos para impulsionar a ação. Em vez disso, a história nasce das decisões do jogador e das situações geradas pelo próprio sistema de jogo.
Para quem procura uma aventura guiada por personagens memoráveis e reviravoltas dramáticas, a versão atual poderá parecer algo limitada. Contudo, para os apreciadores de experiências sandbox, o mundo de Veterum oferece liberdade suficiente para criar momentos verdadeiramente memoráveis.
Grafismo
Visualmente, Veterum apresenta um estilo funcional que privilegia a clareza estratégica sem abdicar de uma identidade própria. Não estamos perante uma produção que pretende impressionar através de tecnologia de ponta ou efeitos visuais espetaculares. Em vez disso, os criadores optaram por uma direção artística que serve diretamente as necessidades da jogabilidade.
Os mapas conseguem transmitir eficazmente a atmosfera sombria do universo. Florestas ameaçadoras, terrenos montanhosos e povoações isoladas ajudam a construir um cenário credível e envolvente. A sensação de viajar por um mundo em declínio está constantemente presente.
Durante os combates, a apresentação visual mantém-se limpa e legível. Esta clareza é essencial num jogo onde fatores como posicionamento, terreno e linha de visão desempenham um papel tão importante. O jogador consegue facilmente interpretar o campo de batalha e planear as suas ações sem se sentir sobrecarregado por elementos visuais excessivos.
Os modelos das unidades cumprem adequadamente a sua função, distinguindo claramente diferentes tipos de combatentes. Embora não apresentem um nível extraordinário de detalhe, possuem personalidade suficiente para que cada membro da companhia seja facilmente identificável.
Os efeitos associados às habilidades e às interações ambientais ajudam a tornar os confrontos mais dinâmicos. Ver rios congelarem ou barricadas influenciarem o movimento dos inimigos acrescenta impacto visual às decisões estratégicas.
Tendo em conta que se trata de um título em Acesso Antecipado, o nível de polimento já impressiona. Existem naturalmente áreas que poderão beneficiar de melhorias futuras, mas o estado atual demonstra um trabalho consistente e competente por parte da equipa de desenvolvimento.

Som
A componente sonora complementa eficazmente a atmosfera geral de Veterum. Embora não procure assumir o protagonismo, desempenha um papel importante na construção do ambiente sombrio que define o jogo.
A banda sonora aposta em temas discretos que acompanham a exploração e os combates sem se tornarem intrusivos. As composições ajudam a reforçar a sensação de aventura num mundo perigoso e imprevisível, contribuindo para a imersão sem distrair o jogador das suas decisões estratégicas.
Os efeitos sonoros apresentam boa qualidade e fornecem feedback claro durante as batalhas. O impacto das armas, os movimentos das unidades e os diversos acontecimentos do campo de batalha ajudam a tornar cada confronto mais envolvente.
Particularmente interessante é a forma como o som acompanha as interações ambientais. Elementos como obstáculos, fenómenos naturais ou alterações do terreno beneficiam de efeitos adequados que reforçam a sensação de que o campo de batalha é um espaço vivo e dinâmico.
Não se trata de uma banda sonora memorável ao ponto de rivalizar com os grandes nomes do género, mas cumpre eficazmente a sua função. Em muitos casos, essa discrição acaba por beneficiar a experiência, permitindo que a atenção permaneça focada na estratégia e na gestão da companhia.
O resultado final é uma componente sonora sólida que contribui positivamente para a atmosfera geral sem revelar grandes fragilidades.
Conclusão
Veterum é um daqueles casos em que o estado de Acesso Antecipado não serve como desculpa para a ausência de conteúdo ou sistemas incompletos. Pelo contrário, já oferece uma experiência surpreendentemente robusta, sustentada por mecânicas bem implementadas e uma direção clara para o futuro.
O combate tático constitui o grande destaque, conseguindo encontrar um equilíbrio interessante entre desafio e acessibilidade. Continua a exigir planeamento, posicionamento e gestão cuidadosa dos recursos, mas evita alguns dos excessos punitivos que caracterizam outros títulos do género. Esta abordagem torna-o mais acolhedor para novos jogadores sem comprometer a profundidade estratégica.
A exploração sandbox e a geração procedural acrescentam um elevado valor de repetição, enquanto a gestão da companhia cria um forte envolvimento emocional com as personagens. Mesmo sem uma narrativa desenvolvida, o jogo consegue gerar histórias próprias através das situações que surgem naturalmente durante cada campanha.
Outro aspeto promissor é a inclusão de ferramentas de modificação, incluindo editores de unidades e mapas. Esta funcionalidade poderá prolongar significativamente a longevidade do jogo e incentivar a criação de conteúdos pela comunidade.
Naturalmente, existem limitações. A ausência de uma campanha completa e de uma narrativa mais estruturada poderá afastar jogadores que valorizam fortemente esse tipo de conteúdo. No entanto, aquilo que já está disponível demonstra um enorme potencial.
Para fãs de RPGs táticos exigentes, especialmente aqueles que apreciam experiências semelhantes a Battle Brothers mas procuram algo ligeiramente menos impiedoso, Veterum revela-se uma recomendação fácil. Mesmo antes da versão final, apresenta qualidade suficiente para justificar a atenção dos entusiastas do género e deixa excelentes perspetivas para o futuro.