Análise: The Gate Must Stand

The Gate Must Stand chega ao mercado como uma proposta que procura fundir dois géneros extremamente populares: tower defense e roguelite. A fórmula está longe de ser inédita, mas continua a atrair jogadores graças ao potencial de criar partidas diferentes a cada tentativa e à constante sensação de progressão. Desenvolvido pela Senmu Studio e publicado no Ocidente através da Gamersky, um dos maiores portais dedicados aos videojogos na China, este é um daqueles títulos que aparece discretamente na Steam sem grande campanha de marketing, confiando quase exclusivamente na sua jogabilidade para conquistar uma comunidade.

À primeira vista, a ideia parece bastante apelativa. Defender um enorme portão contra vagas intermináveis de criaturas, posicionar estrategicamente unidades especializadas, evoluir heróis e desbloquear melhorias permanentes entre partidas são conceitos suficientemente fortes para prender qualquer fã do género durante várias horas.

Felizmente, The Gate Must Stand revela desde cedo que existe competência por trás do projeto. Não é um jogo tecnicamente desleixado nem apresenta problemas graves de estabilidade. Pelo contrário, oferece uma experiência bastante polida na maior parte do tempo e demonstra que existe uma boa compreensão daquilo que torna um tower defense divertido.

O problema é que, à medida que as horas passam, começa também a tornar-se evidente que há uma enorme diferença entre ser competente e ser memorável. Apesar de quase todos os seus sistemas funcionarem, poucos conseguem verdadeiramente destacar-se. Em muitos momentos existe a sensação de que os criadores adicionaram mecânicas, melhorias e sistemas simplesmente porque um roguelite moderno deve ter muitas opções, mesmo quando essas opções acabam por complicar desnecessariamente a experiência.

O resultado é um jogo agradável, capaz de proporcionar dezenas de horas de entretenimento para quem aprecia o género, mas que dificilmente ficará na memória quando comparado com os melhores representantes desta mistura de estratégia e progressão permanente.

Jogabilidade

A jogabilidade constitui claramente o ponto mais forte de The Gate Must Stand. Em vez de recorrer às tradicionais torres estáticas, o jogo substitui-as por personagens inspiradas nas clássicas classes de RPG. Magos de gelo, magos de fogo, guardiões, arqueiros e outras especializações assumem o papel das torres, oferecendo diferentes formas de controlar as vagas de inimigos.

Esta alteração dá imediatamente uma personalidade diferente às batalhas. Embora cada unidade permaneça fixa após ser colocada, a sensação é muito mais próxima de montar uma pequena equipa de heróis do que simplesmente construir estruturas defensivas.

Outro elemento interessante reside na construção dos percursos inimigos. Em vez de mapas extremamente rígidos, existe um caminho relativamente amplo onde podemos utilizar barricadas para canalizar os monstros para zonas específicas. Isto permite criar autênticos corredores de morte, concentrando o poder ofensivo das nossas unidades onde ele é realmente necessário.

Paralelamente à gestão das defesas, também controlamos diretamente um herói. Este pode atacar os inimigos, recolher a experiência deixada pelas criaturas derrotadas e utilizar até duas habilidades especiais durante o combate. Esta componente ativa impede que o jogo se transforme numa experiência totalmente passiva, obrigando o jogador a movimentar-se constantemente pelo mapa.

As partidas dividem-se em três grandes etapas e uma sessão completa pode facilmente ultrapassar os sessenta minutos. Felizmente existe a possibilidade de acelerar a velocidade para o dobro, uma funcionalidade praticamente indispensável, sobretudo durante as vagas intermédias onde pouco acontece para além da eliminação contínua de inimigos.

Como seria de esperar num roguelite, praticamente tudo gira em torno das melhorias aleatórias. Sempre que o protagonista sobe de nível, ou quando evoluímos uma das nossas unidades, somos confrontados com três opções diferentes de evolução.

É precisamente aqui que começam alguns dos problemas do jogo.

A quantidade de melhorias disponíveis é gigantesca. Em teoria isto deveria aumentar a variedade entre partidas, mas na prática gera frequentemente confusão. Muitas descrições são excessivamente longas, pouco claras ou recorrem a terminologia que nem sempre explica corretamente os efeitos produzidos. Existem habilidades que parecem extremamente úteis, enquanto outras deixam o jogador completamente perdido quanto à sua verdadeira utilidade.

O sistema de evolução das próprias unidades também não é imediatamente intuitivo. Cada defensor pode ser melhorado adquirindo múltiplas cópias da mesma personagem até atingir o nível máximo. A ideia funciona, mas a interface não ajuda propriamente a compreender todas as implicações de cada evolução.

A situação repete-se com as relíquias. Durante cada partida surgem pequenas missões opcionais e bosses a cada cinco níveis. Ao derrotá-los obtemos novos artefactos capazes de alterar profundamente a estratégia utilizada. Mais uma vez, existem dezenas de opções, mas nem todas parecem relevantes ou suficientemente distintas para justificar a sua existência.

Há momentos em que The Gate Must Stand transmite claramente uma filosofia de design baseada na quantidade em vez da qualidade. Existem tantos sistemas sobrepostos que alguns acabam inevitavelmente por parecer redundantes.

Apesar destas críticas, o ciclo principal continua surpreendentemente viciante. Colocar unidades, recolher experiência, melhorar personagens, adaptar a defesa às novas ameaças e preparar o confronto seguinte continua a ser divertido durante muitas horas. Mesmo quando determinadas mecânicas não são particularmente elegantes, existe sempre aquela vontade de experimentar “só mais uma partida”.

No final de cada tentativa recebemos uma moeda especial utilizada para desbloquear melhorias permanentes. Esta progressão constante faz com que cada derrota represente igualmente um pequeno avanço, incentivando novas tentativas em dificuldades superiores.

É precisamente esta estrutura roguelite que acaba por sustentar grande parte da longevidade do jogo.

Mundo e história

Se existe uma área onde The Gate Must Stand falha de forma bastante evidente, é precisamente na narrativa.

A premissa é extremamente simples. Existe um enorme portão que precisa de ser protegido contra vagas sucessivas de criaturas demoníacas e monstruosas. Esse conceito serve como justificação para toda a jogabilidade, mas pouco mais.

Não existe uma construção de mundo particularmente interessante, personagens memoráveis ou acontecimentos capazes de criar verdadeiro investimento emocional. O jogador passa praticamente todo o tempo focado na estratégia, sem que exista uma história suficientemente forte para criar contexto ou motivação adicional.

Mesmo os bosses surgem mais como obstáculos mecânicos do que como figuras importantes dentro daquele universo. São inimigos diferentes, visualmente distintos e normalmente bastante mais resistentes, mas raramente existe qualquer enquadramento narrativo para a sua presença.

Os próprios seguidores que recrutamos também não possuem desenvolvimento significativo. Funcionam essencialmente como peças de um tabuleiro estratégico.

Num género onde a jogabilidade assume naturalmente o protagonismo, esta ausência de narrativa não destrói a experiência, mas impede que The Gate Must Stand desenvolva uma identidade própria. Muitos jogos conseguem criar universos memoráveis apenas através da direção artística, pequenas descrições ou eventos ocasionais. Aqui isso praticamente não acontece.

O resultado é um cenário funcional, mas completamente esquecível.

Grafismo

Visualmente, The Gate Must Stand apresenta uma qualidade bastante consistente.

Os modelos das personagens são suficientemente distintos para identificar rapidamente cada classe durante as batalhas, enquanto os efeitos mágicos oferecem um espetáculo visual agradável sempre que dezenas de unidades começam a disparar simultaneamente.

A direção artística aposta numa fantasia relativamente clássica, repleta de demónios, magia, cavaleiros e fortalezas medievais. Não existe propriamente uma identidade visual revolucionária, mas tudo cumpre adequadamente o seu papel.

Durante grande parte da experiência, o desempenho mantém-se bastante estável. Apenas quando o ecrã fica completamente inundado de inimigos, projéteis e efeitos especiais surgem pequenas quebras de fluidez. Felizmente estas situações são relativamente raras e nunca chegam ao ponto de comprometer seriamente a jogabilidade.

Onde o jogo realmente desaponta é na interface.

Grande parte dos menus apresenta enormes blocos de texto, descrições demasiado extensas e organização pouco intuitiva. Descobrir exatamente o que determinada melhoria faz nem sempre é simples, obrigando frequentemente o jogador a perder tempo a analisar informação excessiva.

Também a navegação pelos vários sistemas de progressão poderia ser muito mais clara. Existem demasiados menus, demasiadas categorias e pouca preocupação em apresentar toda essa informação de forma acessível.

Outro pequeno problema prende-se com a inteligência artificial dos inimigos. Ocasionalmente algumas criaturas ficam presas nas barricadas, em obstáculos do cenário ou até nas próprias unidades defensivas. Não acontece frequentemente, mas é um defeito suficientemente recorrente para ser notado.

No geral, o aspeto visual consegue cumprir a sua função sem nunca impressionar verdadeiramente.

Som

O departamento sonoro segue exatamente a mesma filosofia do restante jogo: competente, mas pouco memorável.

A banda sonora acompanha adequadamente o ritmo das batalhas através de temas épicos inspirados na fantasia medieval. As músicas ajudam a criar tensão durante as vagas maiores e aumentam ligeiramente a intensidade nos confrontos contra bosses, mas dificilmente ficará alguma melodia na memória depois de desligarmos o jogo.

Os efeitos sonoros cumprem bem o seu papel. Explosões mágicas, disparos, golpes físicos e habilidades especiais possuem impacto suficiente para transmitir a sensação de poder que se espera deste tipo de combates.

Durante os momentos de maior caos sonoro, com dezenas de unidades a atacar em simultâneo, o áudio consegue manter alguma clareza sem se transformar numa mistura incompreensível de efeitos.

A ausência de uma componente narrativa forte também significa que praticamente não existe trabalho de vozes digno de destaque. Grande parte da informação é apresentada através de texto, reforçando novamente uma das principais fragilidades da interface.

É um trabalho competente que acompanha corretamente a ação, mas sem acrescentar grande personalidade à experiência.

Conclusão

The Gate Must Stand é um daqueles jogos que dificilmente provoca sentimentos extremos. Não é uma obra brilhante nem um desastre. Situa-se confortavelmente num ponto intermédio onde praticamente tudo funciona de forma aceitável, mas muito pouco consegue verdadeiramente destacar-se.

A mistura entre tower defense e roguelite resulta bastante bem. O ciclo de progressão é viciante, existe uma quantidade considerável de conteúdo para desbloquear e as diferentes dificuldades garantem uma longevidade bastante respeitável. Os vários seguidores, relíquias, bosses e melhorias permanentes oferecem razões suficientes para repetir partidas durante muitas horas.

Infelizmente, esse potencial acaba prejudicado por decisões de design menos felizes. A interface é excessivamente carregada, muitas descrições tornam-se confusas, alguns sistemas parecem desnecessariamente complexos e existe uma clara sensação de excesso em várias mecânicas. Em vez de enriquecerem a experiência, algumas melhorias acabam apenas por dificultar a compreensão daquilo que realmente importa.

Também a narrativa praticamente inexistente impede que o jogo desenvolva uma identidade própria. Tudo serve apenas como contexto para justificar as batalhas, deixando pouca margem para criar ligação emocional com o universo apresentado.

Ainda assim, quem procura simplesmente um novo tower defense com elementos roguelite encontrará aqui uma experiência suficientemente sólida. Existe profundidade estratégica, boa capacidade de repetição e uma jogabilidade que consegue manter o interesse mesmo quando outros aspetos deixam a desejar.

The Gate Must Stand nunca atinge o nível dos grandes nomes do género, mas também nunca compromete seriamente aquilo que se propõe fazer. É um jogo competente, acessível e suficientemente divertido para justificar algumas dezenas de horas de exploração das suas inúmeras combinações de unidades e melhorias. Não será uma referência dentro dos tower defense modernos, mas para os fãs da fórmula representa uma aquisição perfeitamente válida, sobretudo para quem valoriza sistemas de progressão constantes e partidas longas recheadas de decisões estratégicas.

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