Já sentiste que não te apetece jogar? Como se o hobby tivesse perdido a piada apenas para o bicho voltar em força semanas depois porque viste uma imagem ou trailer que te chamou à atenção? Se sim, não estás sozinho. Existe até um nome para este fenómeno: videogame fatigue.
Apesar de não ser um diagnóstico médico nem uma condição oficialmente reconhecida, é uma expressão cada vez mais utilizada para descrever aquela sensação de cansaço, saturação ou falta de motivação para jogar, mesmo quando tens uma biblioteca cheia de títulos por experimentar.
Curiosamente, isto não significa necessariamente que deixaste de gostar de videojogos. Na maioria dos casos, significa apenas que o teu cérebro precisa de uma mudança de ritmo.
Porque acontece?
À primeira vista parece estranho. Afinal, jogar é um passatempo. É algo que fazemos para relaxar. Então porque razão podemos ficar “cansados” dele?
A resposta está na forma como consumimos entretenimento atualmente.
Há vinte anos, comprar um jogo era um acontecimento. Jogava-se durante semanas ou meses porque simplesmente não havia dezenas de alternativas à distância de um clique. Hoje, basta abrir o Steam, a Game Pass, a PlayStation Plus, a Epic Games Store ou qualquer outra plataforma para termos centenas de opções.

Paradoxalmente, quanto maior é a escolha, mais difícil se torna escolher.
É o mesmo fenómeno que acontece quando passamos meia hora na Netflix sem conseguir decidir o que ver. No final acabamos por fechar a aplicação.
Nos videojogos acontece exatamente o mesmo.
Começamos um RPG de 80 horas.
Depois vemos um trailer de outro jogo.
Surge uma atualização num live service.
Um amigo convida-nos para jogar online.
Entretanto sai uma demo interessante.
Quando damos por nós, temos cinco jogos iniciados e nenhum realmente avançado.
Esse excesso de estímulos acaba por transformar diversão em indecisão.
O peso do backlog
Existe outro culpado bastante comum: o famoso backlog.
Quase todos os jogadores têm uma lista enorme de jogos comprados que nunca chegaram a instalar.
Promoções constantes, bundles, subscrições e ofertas gratuitas fazem com que acumulemos jogos muito mais depressa do que conseguimos jogá-los.
O problema surge quando essa coleção deixa de ser uma oportunidade e passa a parecer uma lista de tarefas.
Em vez de pensarmos “que fixe, tenho muito por descobrir”, começamos a pensar “tenho de acabar isto tudo”.
A partir desse momento, jogar deixa de ser um hobby e transforma-se numa obrigação.

E ninguém gosta de sentir que está a trabalhar quando pega no comando.
A pressão de terminar tudo
Existe também uma espécie de pressão invisível criada pela comunidade.
Há sempre alguém a discutir o jogo mais recente, o novo sucesso indie ou o RPG que toda a gente diz ser obrigatório.
Sem darmos conta, começamos a sentir que temos de acompanhar todas essas conversas.
Queremos jogar tudo.
Queremos terminar tudo.
Queremos estar sempre atualizados.
Mas isso é impossível.
Mesmo quem joga várias horas por dia nunca conseguirá acompanhar todos os lançamentos.
E está tudo bem.
Os videojogos não são uma corrida.
A culpa dos jogos gigantes
Outra razão para a fadiga é a própria evolução da indústria.
Hoje em dia muitos jogos prometem dezenas ou centenas de horas de conteúdo.
Mapas enormes.
Centenas de missões secundárias.
Colecionáveis.
Passe de batalha.
Eventos semanais.
Desafios diários.
Tudo isto aumenta artificialmente o tempo que passamos no jogo.
Embora alguns jogadores adorem este tipo de conteúdo, outros acabam por sentir que nunca chegam verdadeiramente ao fim.
Em vez de existir uma conclusão satisfatória, existe sempre mais alguma coisa para fazer.

E isso pode ser mentalmente desgastante.
Nem todos os jogos precisam de durar cem horas.
Às vezes uma aventura de seis ou oito horas deixa uma memória muito mais forte.
O efeito FOMO
Outro fator importante é o chamado Fear Of Missing Out, ou simplesmente FOMO.
Eventos temporários.
Itens exclusivos.
Recompensas limitadas.
Battle Passes.
Desafios diários.
Tudo isto cria a sensação de que, se não jogarmos hoje, vamos perder alguma coisa.
O problema é que isso transforma lazer numa responsabilidade.
De repente já não jogamos porque queremos.
Jogamos porque sentimos que devemos.
E isso desgasta qualquer hobby.
Como perceber se tens videogame fatigue?
Nem sempre é fácil distinguir fadiga de simplesmente não estares interessado num determinado jogo.
Alguns sinais comuns incluem:
- Ligas a consola e desligas passado poucos minutos.
- Saltas constantemente entre jogos.
- Passas mais tempo na loja do que a jogar.
- Compras jogos novos para recuperar o entusiasmo, mas acabas por não lhes pegar.
- Passas mais tempo a ver vídeos sobre videojogos do que propriamente a jogar.
- Sentes que jogar parece uma obrigação.
Se te revês em vários destes pontos, talvez estejas apenas a precisar de uma pausa.
E isso é perfeitamente normal.
Como recuperar a vontade de jogar
A boa notícia é que, na maioria dos casos, a solução é bastante simples.
A primeira é aceitar que não precisas de jogar todos os dias.
Tal como acontece com livros, filmes ou séries, também podemos precisar de algum tempo afastados dos videojogos.
Outra dica importante é reduzir drasticamente o número de jogos ativos.
Escolhe apenas um.
Dois no máximo, se forem géneros completamente diferentes.
O cérebro agradece essa simplicidade.
Também pode ajudar experimentar algo completamente fora da tua zona de conforto.
Se passas a vida em RPGs enormes, talvez um jogo independente de duas horas seja exatamente aquilo de que precisas.
Se jogas apenas shooters competitivos, talvez uma aventura narrativa seja uma mudança refrescante.
Às vezes o problema não são os videojogos.
É apenas aquele tipo específico de videojogo.
Também vale a pena desligar um pouco das redes sociais.
É muito difícil aproveitar um jogo quando estamos constantemente a ver trailers dos próximos dez lançamentos.
Quanto menos compararmos a nossa experiência com a dos outros, mais facilmente voltamos a apreciar aquilo que estamos realmente a jogar.
Por fim, não tenhas medo de fazer uma pausa completa.
Lê um livro.
Vê uma série.
Vai caminhar.
Experimenta outro hobby durante alguns dias.
Muitos jogadores descobrem que, depois de uma ou duas semanas longe do comando, a vontade regressa naturalmente.
E, muitas vezes, regressa com ainda mais força.
Não há problema nenhum em parar
Existe quase uma culpa associada à ideia de deixar de jogar durante algum tempo.
Mas pensa nisto de outra forma.
Ninguém estranha quando alguém passa um mês sem ver séries.
Ou quando deixa de ler livros durante algum tempo.
Com os videojogos deveria ser exatamente igual.
Os hobbies existem para nos fazer felizes.
Não para cumprir horários.
Não para terminar listas.
Não para justificar subscrições.
No dia em que um passatempo começa a parecer trabalho, talvez seja altura de fazer uma pausa.
A magia acaba sempre por voltar
O mais curioso sobre a videogame fatigue é que, quase sempre, ela desaparece sozinha.
Basta aparecer aquele trailer inesperado.
Aquele remake que esperavas há anos.
Uma imagem nas redes sociais.
Um amigo que te convida para uma sessão cooperativa.
Ou simplesmente um sábado chuvoso sem planos.
De repente, voltas a pegar no comando.
As horas passam sem dares por isso.
E lembras-te exatamente da razão pela qual este continua a ser um dos melhores hobbies do mundo.
Por isso, se neste momento não te apetece jogar, não entres em pânico. Não significa que deixaste de gostar de videojogos. Significa apenas que, tal como qualquer outra paixão, também esta precisa de respirar de vez em quando. E quando regressar, é bem provável que o faça com a mesma intensidade da primeira vez.
