Análises

Análise: Cozy Marbles

Há qualquer coisa de estranhamente relaxante em ficar a olhar para berlindes a percorrer uma pista. Quem passou parte da infância a montar pistas de plástico ou madeira para depois ficar simplesmente a ver as pequenas bolas chegar ao fim sabe exatamente do que estou a falar. Não há propriamente uma grande recompensa no final. A graça está em construir a pista, testar se funciona e ficar a vê-la em movimento.

É precisamente essa ideia que Cozy Marbles tenta recuperar. Em vez de transformar a construção de pistas numa experiência complicada, o jogo aposta numa abordagem bastante simples: temos peças, temos berlindes e podemos construir praticamente aquilo que nos passar pela cabeça. Não existem cronómetros a pressionar-nos nem uma pontuação que nos diga se estamos a jogar bem ou mal. Podemos simplesmente construir.

É uma proposta fácil de perceber e também bastante fácil de começar. Mesmo quem nunca tenha experimentado um jogo deste género consegue pegar nas ferramentas e começar a montar uma pista em poucos minutos. A parte interessante é que, depois de percebermos as bases, começamos naturalmente a tentar fazer coisas mais complicadas. Uma curva transforma-se numa sequência de curvas, depois aparece um salto e, quando damos por isso, estamos a tentar perceber porque razão o nosso berlinde decidiu voar para fora da pista.

Jogabilidade

A construção é o centro de tudo e, felizmente, não é preciso lutar contra as ferramentas para conseguir fazer aquilo que queremos. As peças encaixam de forma bastante intuitiva e podemos movimentar e rodar as diferentes secções da pista sem grandes complicações. Calhas, curvas, espirais e descidas podem ser combinadas livremente, sendo possível começar com algo extremamente simples e ir acrescentando elementos à medida que a ideia ganha forma.

Há algumas pequenas particularidades no funcionamento das ferramentas que se tornam mais evidentes quando começamos a construir pistas maiores, mas nada que estrague a experiência. Na maior parte do tempo, o jogo simplesmente nos deixa fazer aquilo que queremos sem estar constantemente a interromper o processo.

Depois aparecem as peças que tornam as pistas muito mais interessantes. Existem aceleradores, rampas que lançam os berlindes pelo ar, canhões e até zonas onde a gravidade é invertida. É aqui que a construção deixa de ser apenas uma questão de criar um caminho e começa a parecer uma pequena experiência de física.

Uma das minhas adições preferidas são os blocos de xilofone. Quando um berlinde passa por cima deles, toca uma nota. Parece uma coisa pequena, mas rapidamente começamos a colocar os blocos de forma deliberada para criar pequenas melodias. De repente, uma pista que servia apenas para levar uma bola do ponto A ao ponto B passa também a funcionar como um instrumento musical.

Para além da construção livre, existem desafios que servem para dar algum objetivo à experiência. Ao completá-los recebemos bilhetes que podem ser utilizados para desbloquear novos ambientes, peças e opções de personalização. É uma forma bastante simples de progressão e, neste caso, acho que é exatamente o que o jogo precisa.

Não existem microtransações a tentar vender-nos peças ou cosméticos. Jogamos, completamos desafios e vamos desbloqueando coisas. É um sistema que incentiva a experimentar diferentes soluções sem transformar cada novo item numa compra adicional.

Os pontos de controlo também permitem fazer pistas mais elaboradas. Podemos criar diferentes pontos de partida e chegada ou dividir uma pista em várias secções. Isto torna-se particularmente útil quando começamos a colocar muitos berlindes ao mesmo tempo e queremos criar uma espécie de corrida improvisada.

Existe ainda uma funcionalidade bastante interessante para quem faz transmissões na Twitch. Os espectadores podem participar diretamente através do chat, lançando os seus próprios berlindes personalizados na pista. É uma ideia simples, mas tem potencial para transformar uma sessão normal numa espécie de competição entre quem está a jogar e quem está a assistir.

Mundo e história

Cozy Marbles não tem propriamente uma história. E, sinceramente, seria estranho se tivesse. O jogo está muito mais interessado em dar-nos espaços onde construir pistas do que em inventar uma narrativa para justificar porque razão estamos a passar horas a ver berlindes a rolar.

Os diferentes ambientes acabam por cumprir esse papel. Temos uma sala de estar que transmite aquela sensação de estar a brincar no chão de casa, uma espécie de taberna saída de um conto de fadas e uma estação espacial para quem prefere construir pistas com um ambiente mais futurista.

A sala de estar pode ser apresentada durante o dia ou à noite, e esta segunda versão é particularmente confortável para este tipo de jogo. A taberna muda completamente o ambiente e permite criar pistas entre cogumelos e pequenas construções de fantasia. Já a estação espacial dá acesso a elementos como portais e lasers, que acabam por combinar bastante bem com pistas mais complicadas.

Também podemos personalizar os próprios berlindes. É possível alterar as cores e padrões, escolher bandeiras e acrescentar algumas opções mais engraçadas, incluindo caras e pequenos braços. Não é nada que mude a forma como jogamos, mas faz com que seja fácil começar a identificar um berlinde específico quando temos vários a correr pela mesma pista.

E, claro, nem sempre as coisas correm como planeado. Um berlinde pode sair disparado por uma curva, bater num obstáculo ou simplesmente cair para fora da pista. Faz parte da graça. Às vezes passamos vários minutos a tentar construir algo perfeito apenas para descobrir, no primeiro teste, que a física tinha outras ideias.

Grafismo

Visualmente, Cozy Marbles aposta numa estética simples e colorida que combina muito bem com aquilo que pretende fazer. Tudo parece ter sido construído para transmitir a sensação de estarmos a brincar com um conjunto de brinquedos físicos.

As diferentes peças têm materiais distintos e conseguimos perceber facilmente quando estamos a utilizar madeira, metal ou plástico. A iluminação também ajuda a dar algum volume às pistas sem tentar transformar o jogo numa demonstração técnica.

O mais importante, porém, é a forma como os berlindes se movimentam. As colisões, os ressaltos e as quedas são suficientemente convincentes para que tenhamos vontade de experimentar novamente quando alguma coisa corre mal. Ver uma pista que construímos a funcionar como tínhamos imaginado é provavelmente a maior recompensa visual que o jogo oferece.

A interface segue a mesma lógica. Não tenta ocupar metade do ecrã com menus e informações. As ferramentas estão relativamente bem organizadas e conseguimos voltar rapidamente à construção depois de escolher uma peça.

O desempenho também não apresentou problemas relevantes. Mesmo quando colocamos muitos berlindes a circular ao mesmo tempo, a experiência mantém-se fluida. É particularmente importante aqui porque grande parte da diversão está precisamente em observar as trajetórias e perceber onde é que alguma coisa correu mal.

Som

A música segue o mesmo caminho do resto do jogo: é calma e está lá sobretudo para acompanhar. Os temas têm uma influência lo-fi bastante evidente e funcionam bem como música de fundo enquanto estamos a construir.

É importante que a banda sonora não tente chamar demasiado a atenção. Cozy Marbles é um jogo em que podemos passar bastante tempo a mexer numa peça alguns centímetros para a esquerda, testar e voltar a mexer. Uma música demasiado agressiva provavelmente acabaria por cansar rapidamente.

Os efeitos sonoros são talvez ainda mais importantes. O som dos berlindes a passar pelas diferentes superfícies ajuda a dar peso às pistas e torna as colisões bastante satisfatórias. Madeira, metal e outros materiais têm sons diferentes e isso dá uma pequena sensação de presença física às construções.

Os blocos de xilofone voltam a ser um dos melhores pormenores. Podemos construir uma pista que também funciona como uma pequena sequência musical e depois simplesmente ficar a ouvir os berlindes a passar pelas notas. É um daqueles detalhes que não precisamos de utilizar, mas que acabam por ser difíceis de ignorar depois de descobrirmos que existem.

Conclusão

Cozy Marbles é um daqueles jogos que não tenta fazer demasiado e acaba precisamente por beneficiar disso. A ideia é simples: construir pistas, colocar berlindes e vê-los percorrer aquilo que criámos. Não há uma história gigantesca, não há combates e não existe nenhuma pressão para chegar ao fim rapidamente.

O que existe é bastante espaço para experimentar. Podemos fazer uma pista simples em poucos minutos ou passar muito mais tempo a tentar construir algo elaborado, com saltos, aceleradores, alterações de gravidade e diferentes caminhos. Quando alguma coisa funciona, existe uma satisfação bastante genuína em ver o resultado.

Os desafios e o sistema de desbloqueios dão alguma estrutura à experiência, enquanto a integração com a Twitch acrescenta uma componente que pode ser especialmente interessante para quem faz transmissões. A possibilidade de os espectadores colocarem os seus próprios berlindes na pista tem potencial para gerar alguns momentos bastante caóticos.

Não é um jogo para quem procura adrenalina ou dezenas de sistemas diferentes para dominar. É precisamente o contrário. É uma experiência para aqueles momentos em que queremos desligar um pouco a cabeça e fazer qualquer coisa sem grande pressão.

Para quem tem boas memórias de construir pistas de berlindes quando era criança, existe ainda aquele pequeno fator nostalgia que torna tudo mais fácil de apreciar. E mesmo para quem não tem essa ligação, a física e a liberdade de construção são suficientes para perceber rapidamente onde está a graça.

Cozy Marbles não precisa de ser mais complicado do que isto. É um pequeno espaço para construir, testar e ficar a olhar para berlindes a rolar. E, às vezes, é exatamente o tipo de jogo simples que apetece ter instalado.

Se procuram algo para jogar sem pressa, especialmente depois de um dia cansativo, é uma proposta que vale a pena experimentar.

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