Welcome to Elderfield tenta ser um safari de terror inspirado no visual clássico dos simuladores agrícolas, mas revela-se rapidamente algo diferente. Não se trata de uma paródia ou de uma desconstrução do género. É uma mímica que prefere focar-se no combate por turnos e na gestão de recursos em vez de se perder na típica rotina de plantar e colher sem pressões. O problema é que a constante procura pela sensação de conforto acaba por desarmar qualquer tentativa de terror genuíno, deixando-nos com um parque temático de sustos desorganizados que vão desde referências a Lovecraft até ficção de zombies.
Jogabilidade
O combate é o verdadeiro motor da experiência. Ao contrário de outros títulos do género que tratam as batalhas como uma distracção secundária, aqui temos um RPG por turnos completo. A decisão de colocar os confrontos no centro da acção funciona muito bem, especialmente porque o jogo substitui a habitual pressão do tempo e da energia pelo perigo dos encontros com os inimigos. Não há desgaste de ferramentas nem uma barra de energia que nos obrigue a ir para a cama a meio do dia. Temos até um feitiço de teletransporte gratuito para regressar a casa a qualquer momento, o que retira grande parte da urgência quotidiana.
Para compensar a falta de limites de tempo, o jogo introduz uma enorme dependência do factor sorte em quase todas as acções. Vasculhar o lixo, saquear o cadáver de um monstro ou interagir com uma caixa multibanco assombrada exige o lançamento de um dado virtual de seis faces. Até o acto de ir dormir pode resultar em ratos a morder as orelhas da personagem. Esta constante fricção obriga o jogador a planear com cuidado as incursões nas masmorras. É preciso decidir se temos curas suficientes para descer mais um nível ou se devemos arriscar a interacção com um evento aleatório.
O progresso nas masmorras exige a realização de tarefas para grupos locais, como o clube de corrida que conhece os caminhos da floresta escura. A progressão de equipamento é robusta, dividida entre combates corpo a corpo que poupam recursos e magia poderosa mas frágil. Contudo, o sistema de criação de itens perde alguma utilidade porque é muito fácil encontrar armas superiores através da exploração e da sorte nos saques antes de termos capacidade para as fabricar.
A agricultura e a criação de animais continuam presentes, mas parecem menos dinâmicas do que os combates. Para cultivar a terra, é necessário purificar cada quadrado com um item raro. Os produtos da quinta servem um propósito maior: quebrar o selo da Torre de Pedra, o mistério central da história. No entanto, o investimento financeiro necessário é enorme, funcionando como um sorvedouro de moedas que obriga a cumprir prazos e a gerir as colheitas de cada estação para conseguir ver os créditos finais.

Mundo e história
A vila de Elderfield é um aglomerado de clichés sem grande subversão. Não há carros, a escola está fechada para sempre mas a biblioteca continua cheia, e os habitantes reúnem-se frequentemente em festivais sazonais que pouco afectam a nossa relação com eles ou o nosso inventário. A decadência do local não resulta de problemas sociais reais, mas sim da acção de um culto subterrâneo, o que mantém o ambiente demasiado seguro.
Esta necessidade de manter tudo acolhedor esvazia o impacto das missões mais sombrias. Construir uma esposa artificial para um homem solitário resulta apenas num reencontro feliz, sem qualquer reviravolta ou amargura. Ainda assim, existem pormenores interessantes. Os esqueletos da vila são figuras bizarras que decidiram abandonar a carne e viver em catacumbas que fazem lembrar lares de idosos abandonados. O diálogo de um habitante que confessa ter de voltar a colocar a pele porque ninguém contrata esqueletos é dos poucos momentos que consegue criar um verdadeiro arrepio.
O grande ponto fraco deste mundo reside nas relações sociais. Tentar criar laços com os habitantes é uma tarefa penosa e sem recompensa. Os potenciais parceiros românticos são desinteressantes e não evoluem ao longo do tempo. O processo de oferecer presentes baseia-se em tentativa e erro para subir uma barra de afecto que não altera a narrativa. Curiosamente, embora seja possível namorar com monstros de lama ou esqueletos, o jogo falha na diversidade ao não incluir uma única personagem humana não-branca em todo o seu elenco.
Grafismo
O aspecto visual vai beber directamente à estética pixelizada dos simuladores de quinta, mas acrescenta uma camada de estranheza na arte dos monstros, claramente inspirada nos trabalhos de Junji Ito. Os cenários das masmorras e o design das criaturas criam uma atmosfera pesada que contrasta com a pacatez da vila, embora a apresentação nunca atinja o nível de desespero das suas inspirações literárias.

Som
A banda sonora é um dos elementos mais fortes para a construção da atmosfera de Elderfield. Cada estação do ano traz o seu próprio conjunto de temas musicais que ajudam a caracterizar a passagem do tempo. O acesso a diferentes estações de rádio durante a exploração acrescenta uma camada extra de desconforto auditivo que assenta muito bem ao tom misterioso da aventura.
Conclusão
Welcome to Elderfield funciona melhor para quem procura um RPG de masmorras focado no combate por turnos, na gestão de recursos e num ciclo de jogo viciante sem as habituais restrições de tempo deste género de simuladores. Não irá agradar a quem procura uma componente social forte ou uma história de terror com impacto emocional, uma vez que as interacções com os habitantes são superficiais e o tom geral prefere o conforto à verdadeira tensão. No fundo, é um jogo de sobrevivência e combate competente que usa a pele de Stardew Valley para esconder a sua verdadeira natureza mecânica.

