A aventura decorre num deserto pós-apocalíptico dominado por um império tirânico, onde a tecnologia e a magia coexistem. No centro deste universo encontra-se o Elios, uma energia essencial para o funcionamento de praticamente tudo, desde os veículos que atravessam as dunas até às habilidades utilizadas durante os confrontos. É também um recurso indispensável para a sobrevivência do grupo, o que transforma cada decisão numa questão de equilíbrio entre as necessidades imediatas e os objetivos a longo prazo.
Acompanhamos uma caravana de sobreviventes que percorre este território inóspito à procura de um novo lar e de uma irmã desaparecida há duas décadas, durante uma expedição. Em vez de acompanhar um protagonista fixo, o jogo constrói a sua equipa através de personagens geradas proceduralmente e recrutadas ao longo da aventura. Esta abordagem reforça a natureza imprevisível da experiência, embora tenha consequências na forma como a narrativa se desenvolve.
É precisamente nessa combinação de sistemas que Dunebound Tactics encontra a sua identidade. A navegação em tempo real pelo deserto, os combates por turnos numa grelha e a gestão rigorosa dos recursos obrigam-nos a pensar para lá do confronto imediato. Ao mesmo tempo, a estrutura roguelite incentiva a repetir as expedições, aprender com os erros e desbloquear melhorias permanentes que tornam as tentativas seguintes mais acessíveis.
Não é um jogo que procure competir com os grandes RPG táticos em dimensão ou profundidade narrativa. A sua ambição passa por experimentar com as convenções do género, privilegiando a gestão estratégica e a repetição de partidas. E, apesar de algumas limitações na construção da história e na variedade dos cenários, Dunebound Tactics consegue apresentar uma proposta própria, especialmente interessante para quem gosta de jogos exigentes em que cada recurso e cada movimento podem fazer a diferença.
Jogabilidade
A jogabilidade de Dunebound Tactics divide-se entre duas componentes principais: a navegação pelo deserto em tempo real e os combates táticos por turnos. Embora funcionem de maneira diferente, ambas estão ligadas pelo mesmo elemento central, o Elios. Esta energia é utilizada para alimentar a viagem entre pontos de interesse, recuperar os membros da equipa e ativar determinadas capacidades durante os confrontos. Por isso, a sua gestão acaba por ser uma das responsabilidades mais importantes ao longo de toda a aventura.
O sistema exige que pensemos cuidadosamente na utilização dos recursos disponíveis. Gastar demasiado Elios durante a exploração pode deixar-nos numa posição complicada quando chegar a altura de enfrentar um grupo de inimigos. Da mesma forma, utilizar habilidades poderosas durante um combate pode facilitar a vitória, mas também comprometer a capacidade de responder aos desafios seguintes.
Esta ligação entre exploração e combate é uma das características mais interessantes do jogo. Em muitos RPG táticos, as batalhas constituem o principal foco estratégico, enquanto a deslocação pelo mapa funciona sobretudo como uma forma de chegar ao próximo encontro. Aqui, a viagem tem um custo concreto, obrigando-nos a ponderar se vale a pena desviar a caravana para investigar determinado local ou se será preferível conservar os recursos para mais tarde.
O Elios funciona, assim, como uma espécie de orçamento partilhado para várias atividades. A ideia acrescenta uma dimensão estratégica à gestão da equipa, mas também pode tornar a experiência bastante punitiva. Como as reservas são limitadas, uma decisão menos acertada pode ter consequências que se prolongam para além de um único confronto.
Quando chegamos aos combates, Dunebound Tactics volta a afastar-se de algumas convenções tradicionais do género. A equipa divide-se entre três combatentes da linha da frente, responsáveis pelas ações diretas, e três personagens de apoio na retaguarda, cujas capacidades oferecem efeitos passivos que podem influenciar todo o campo de batalha. Estas habilidades também dependem do Elios, reforçando a importância de equilibrar as necessidades da equipa.
Esta estrutura cria uma diferença clara entre quem participa diretamente nos confrontos e quem contribui através de capacidades de suporte. Não basta escolher personagens com ataques poderosos; é igualmente necessário considerar os benefícios que os elementos da retaguarda podem proporcionar. A composição da equipa torna-se, por isso, uma parte importante da preparação para cada batalha.
Outra decisão interessante está relacionada com a forma como os ataques funcionam. Ao contrário de jogos como XCOM ou Fire Emblem, onde a probabilidade de acertar pode transformar um movimento aparentemente seguro num fracasso, Dunebound Tactics garante que os golpes atingem o alvo quando executados nas condições previstas. Os acertos críticos continuam a existir, mas dependem dos atributos e das características das personagens.
Esta opção reduz a influência da aleatoriedade nos resultados imediatos e coloca maior ênfase no planeamento. Em vez de perdermos um combate porque vários ataques falharam consecutivamente, podemos concentrar-nos mais diretamente no posicionamento, na gestão das habilidades e na forma como controlamos os adversários. A abordagem torna os confrontos mais previsíveis no que diz respeito à execução dos ataques, embora também retire alguma da incerteza que caracteriza outros representantes do género.
O terreno também desempenha um papel importante. Durante as batalhas, podemos destruir elementos de cobertura, criar pilares elementais, colocar minas e empurrar inimigos para perigos ambientais. Estas possibilidades acrescentam uma camada tática que vai além da simples escolha do alvo e da utilização do ataque mais poderoso. A posição dos adversários e os elementos presentes no cenário podem ser aproveitados para obter vantagem, tornando o ambiente parte integrante da estratégia.
Os confrontos com os bosses surgem no final de cada ciclo e funcionam como momentos de avaliação das decisões tomadas durante a partida. Estes combates são relativamente concisos, mas exigem atenção ao posicionamento e à capacidade de controlar os grupos inimigos. Uma abordagem ponderada pode tornar os encontros bastante mais acessíveis, enquanto uma equipa mal preparada corre o risco de ser rapidamente ultrapassada.
A vitória também tem consequências para além da expedição em curso. Ao derrotar um boss, recebemos melhorias permanentes que permanecem disponíveis nas tentativas seguintes. Esta progressão é essencial para a estrutura roguelite, pois permite transformar derrotas anteriores em oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento.
As melhorias permanentes são complementadas por circuitos que desbloqueiam benefícios progressivos. Desta forma, mesmo quando uma expedição termina prematuramente, existe a possibilidade de regressar mais preparado. A dificuldade deixa de depender exclusivamente da capacidade de concluir uma partida e passa também pela construção gradual de uma base de melhorias que facilite as futuras tentativas.
A geração procedural contribui para aumentar a variedade das expedições, fazendo com que os percursos e os encontros não sejam sempre iguais. Esta característica incentiva a experimentação e oferece motivos para regressar ao jogo, embora não garanta que todas as partidas sejam igualmente equilibradas. A imprevisibilidade pode tornar a experiência mais interessante, mas também contribui para situações em que a dificuldade parece pouco consistente.
Cada partida dura, em média, cerca de quarenta minutos, o que facilita a realização de várias tentativas numa única sessão. No entanto, a variedade dos sistemas não é suficiente para esconder todas as limitações. Apesar do potencial da componente tática, a experiência pode começar a parecer repetitiva depois de algumas horas, sobretudo quando já conhecemos as principais possibilidades de combate e os diferentes tipos de unidades.

Mundo e história
O universo de Dunebound Tactics apresenta-nos um deserto pós-apocalíptico onde a magia e a tecnologia coexistem. É um território árido, marcado pela presença constante de poeira e por uma atmosfera de desolação, dominado por um império tirânico. A sobrevivência depende de uma energia conhecida como Elios, que alimenta veículos, permite utilizar magia e funciona simultaneamente como moeda e fonte de energia.
Apesar das semelhanças temáticas que o cenário possa sugerir com outras obras de ficção científica centradas em desertos e recursos escassos, Dunebound Tactics constrói a sua própria premissa. O Elios ocupa uma posição central na organização deste mundo, influenciando tanto o funcionamento da tecnologia como as decisões quotidianas daqueles que tentam sobreviver.
A narrativa acompanha uma caravana que percorre as linhas de energia do deserto à procura de um novo lugar para viver. Ao mesmo tempo, o grupo procura descobrir o que aconteceu à irmã desaparecida durante uma expedição, duas décadas antes. Existe, portanto, um objetivo pessoal que dá alguma direção à viagem, embora a estrutura do jogo não permita desenvolver esta história com a mesma continuidade de um RPG tradicional.
A principal razão está na utilização de personagens geradas proceduralmente. Em vez de acompanharmos um protagonista fixo, a equipa é formada pelos sobreviventes que vamos recrutando ao longo da aventura. Esta escolha encaixa na natureza roguelite do projeto, uma vez que cada partida pode apresentar uma combinação diferente de personagens e circunstâncias.
Por outro lado, a ausência de um elenco estável dificulta a construção de relações mais profundas e de uma narrativa verdadeiramente coesa. Os acontecimentos acabam por surgir de forma fragmentada, acompanhando a evolução de cada expedição em vez de desenvolverem uma história contínua com personagens bem definidas. A premissa inicial tem potencial, mas nem sempre recebe o espaço necessário para produzir um impacto emocional significativo.
Esta é uma das principais limitações do jogo. O mundo apresenta elementos interessantes, desde a utilização do Elios até à existência de um império opressor, mas a história funciona sobretudo como enquadramento para a componente estratégica. Quem procura personagens memoráveis, diálogos elaborados ou uma narrativa com grandes reviravoltas poderá sentir falta de maior profundidade.
No fundo, Dunebound Tactics prefere contar a sua história através da estrutura da experiência e das decisões que tomamos durante as expedições. É uma opção coerente com o formato roguelite, mas que limita a capacidade de desenvolver uma narrativa tão envolvente como a de outros RPG táticos mais centrados nas personagens.
Grafismo
Visualmente, Dunebound Tactics opta por uma direção artística colorida, com personagens e cenários que recorrem a uma estética cel-shaded e a uma apresentação inspirada nas bandas desenhadas. É uma escolha interessante para um jogo ambientado num deserto pós-apocalíptico, sobretudo porque evita que o cenário se torne excessivamente sombrio ou monocromático.
A utilização de cores fortes contrasta com a natureza desolada do mundo e ajuda a distinguir os diferentes elementos presentes no ecrã. O resultado tem personalidade e contribui para que o jogo se destaque dentro de um género onde a grelha de combate e a apresentação funcional dos cenários assumem frequentemente um papel predominante.
As quinze categorias de unidades também procuram oferecer alguma diversidade visual. Cada tipo apresenta um arquétipo próprio, permitindo reconhecer as diferentes funções e ameaças presentes nos confrontos. No entanto, as personagens não possuem uma individualidade particularmente marcante, e a semelhança entre algumas delas reduz o impacto que poderiam ter enquanto elementos de um universo mais desenvolvido.
A geração procedural também tem consequências na variedade dos ambientes. Embora seja importante para garantir que as expedições não se repetem exatamente da mesma forma, o cenário continua a recorrer sobretudo a dunas, rochas, vegetação dispersa e detritos do deserto. Com o passar do tempo, estes elementos começam a tornar-se familiares, fazendo com que a variedade estrutural não se traduza necessariamente numa diversidade visual igualmente significativa.
É uma limitação compreensível num projeto independente com uma forte componente de geração procedural, mas que se torna mais evidente quando passamos várias horas a repetir expedições. A direção artística é competente e tem uma identidade clara, embora a reutilização de elementos ambientais impeça o mundo de transmitir uma sensação de descoberta constante.
No plano técnico, a experiência é bastante sólida. O desempenho mantém-se fluido, sem problemas evidentes de fluidez, surgimento tardio de elementos no cenário ou tempos de carregamento excessivos. Esta estabilidade é importante num jogo em que precisamos de interpretar rapidamente o campo de batalha e acompanhar as ações das unidades.

Som
A componente sonora é uma das surpresas mais agradáveis de Dunebound Tactics. Num jogo cuja principal preocupação está na gestão de recursos e na construção de estratégias, o som ambiente poderia facilmente passar despercebido. No entanto, desempenha um papel importante na criação da atmosfera do deserto e na forma como sentimos o mundo que nos rodeia.
Os efeitos ambientais ajudam a transmitir a sensação de um território árido, exposto ao vento e marcado pela desolação. Esta componente sonora reforça o ambiente pós-apocalíptico sem precisar de recorrer constantemente a momentos dramáticos ou a sequências cinematográficas. A paisagem sonora acompanha a exploração e contribui para dar coerência ao universo apresentado.
Os efeitos dos combates também merecem destaque. Os golpes e as diferentes ações possuem impacto sonoro suficiente para tornar os confrontos mais satisfatórios, complementando a apresentação visual e ajudando a transmitir a força das habilidades utilizadas pelas personagens. Num jogo em que as batalhas constituem uma parte fundamental da experiência, estes detalhes contribuem para tornar cada ação mais percetível.
A música segue a mesma orientação, privilegiando uma atmosfera que combina com o cenário desértico e com a natureza fantástica do mundo. Não procura transformar cada confronto num acontecimento épico, mas integra-se bem na experiência e ajuda a manter a identidade sonora do jogo.
Importa referir que não existe dobragem das personagens. Os diálogos e as escolhas narrativas são apresentados exclusivamente através de texto no ecrã. Esta opção mantém a apresentação simples e adequada à dimensão do projeto, embora também limite a expressividade das personagens e a capacidade de transmitir emoções através das suas vozes.
A ausência de dobragem não é necessariamente um problema num RPG tático independente, mas contribui para que a narrativa tenha uma presença mais discreta. Como a história já sofre com a estrutura procedural e com a falta de personagens fixas, a ausência de interpretação vocal reforça a sensação de distanciamento em relação aos acontecimentos.
Conclusão
Dunebound Tactics é uma proposta independente que procura encontrar um espaço próprio dentro dos RPG táticos por turnos. Ao combinar combates numa grelha com navegação em tempo real, gestão de recursos e uma estrutura roguelite, apresenta uma experiência que se afasta de algumas das convenções mais conhecidas do género.
A principal virtude está na forma como os diferentes sistemas se relacionam. O Elios não é apenas um recurso utilizado durante as batalhas: também alimenta a viagem pelo deserto e permite manter a equipa em condições de continuar a aventura. Esta ligação obriga-nos a pensar a longo prazo e a considerar as consequências das nossas decisões, tornando a gestão dos recursos uma parte fundamental da estratégia.
A progressão roguelite completa a proposta, permitindo desbloquear melhorias permanentes e tornar as tentativas seguintes mais acessíveis. As partidas relativamente curtas facilitam a repetição, e a geração procedural ajuda a manter alguma imprevisibilidade. Para quem gosta de experimentar diferentes abordagens e aprender com cada derrota, existe aqui uma base bastante apelativa.
No entanto, nem tudo funciona com a mesma eficácia. A dificuldade elevada pode tornar as primeiras tentativas particularmente punitivas, enquanto a dependência de um único recurso para tantas atividades limita a margem de manobra em determinadas situações. A geração procedural também tem um custo narrativo: sem um protagonista fixo e com uma equipa formada por sobreviventes recrutados durante a aventura, a história acaba por parecer fragmentada e pouco desenvolvida.
A variedade visual sofre de limitações semelhantes. A estética cel-shaded tem personalidade, mas a repetição dos elementos do deserto reduz a sensação de descoberta ao longo de várias partidas. As personagens também carecem de maior individualidade, embora o desempenho técnico seja sólido e a apresentação permaneça fluida.
Apesar destas fragilidades, Dunebound Tactics consegue justificar a sua existência através das ideias que introduz. Não oferece a profundidade narrativa ou a escala de algumas das grandes referências do género, mas também não procura competir diretamente com elas. A sua força está na forma como combina sistemas estratégicos e numa estrutura que recompensa a aprendizagem, a gestão cuidadosa dos recursos e a capacidade de adaptação.
Por cerca de 14,99 euros, é uma opção interessante para quem procura um RPG tático exigente com elementos roguelite. A experiência poderá não durar tanto quanto alguns jogadores desejariam, mas apresenta mecânicas suficientemente distintas para justificar a atenção dos fãs do género.
No final, Dunebound Tactics é um jogo competente, com boas ideias e uma identidade própria. A narrativa pouco desenvolvida e a repetição dos cenários impedem-no de alcançar todo o seu potencial, mas a componente estratégica consegue compensar parte dessas limitações. Para quem prefere sistemas de jogo sólidos a uma história elaborada, esta viagem por um deserto devastado tem motivos suficientes para merecer uma oportunidade.

