Análises

Análise: The Walking Dead: Streets of Survival

O universo de The Walking Dead já deu origem a vários videojogos, mas nem todos conseguiram fazer justiça à série que os inspirou. As aventuras narrativas da Telltale continuam a ser uma referência, enquanto outras adaptações tiveram mais dificuldade em encontrar uma identidade própria. The Walking Dead: Streets of Survival tenta seguir um caminho diferente, trocando as decisões dramáticas e a sobrevivência tradicional por um beat em up de deslocação lateral, recheado de confrontos contra os Salvadores de Negan.

Desenvolvido pela Odaclick Game Studio e publicado pela Trailmark Games, o jogo centra-se na guerra entre Rick Grimes e o grupo de sobreviventes que o acompanha contra os Salvadores, uma das principais ameaças da série televisiva da AMC. Além de Rick, podemos controlar Daryl Dixon e Michonne, personagens com estilos de combate próprios dentro desta aventura.

A proposta pode parecer estranha à primeira vista. Afinal, The Walking Dead está muito associado à tensão da sobrevivência, às relações entre personagens e às escolhas difíceis que surgem quando a humanidade enfrenta o colapso. Transformar tudo isto num jogo de pancadaria em duas dimensões é uma mudança considerável, mas que acaba por funcionar melhor do que seria de esperar.

É uma adaptação que provavelmente agradará mais aos fãs da série televisiva e aos jogadores que gostam de beat em ups tradicionais. Existem ideias interessantes que ajudam a distinguir o jogo de outras propostas do género, mas também algumas decisões que impedem a experiência de alcançar todo o seu potencial.

Jogabilidade

A base de Streets of Survival é simples: escolhemos uma personagem, entramos numa fase e avançamos pelo cenário enquanto enfrentamos os inimigos que aparecem pelo caminho. Os ataques corpo a corpo permitem executar combos básicos, e a estrutura de deslocação lateral remete para os beat em ups clássicos. Não é necessário dominar sistemas particularmente complexos para começar a distribuir golpes, o que torna a experiência acessível desde os primeiros minutos.

A diferença está na forma como o jogo utiliza as armas de fogo. Os Salvadores aparecem frequentemente armados, obrigando-nos a prestar atenção à distância e à proteção disponível. Jogar com Rick ou Daryl significa começar cada fase com uma arma de longo alcance, embora a munição seja limitada. Podemos disparar contra os adversários ou procurar uma oportunidade para nos aproximarmos e resolver o confronto através do combate corpo a corpo.

Esta mistura entre pancadaria e tiroteios acrescenta alguma variedade, mas nem sempre funciona de forma equilibrada. Quando vários inimigos armados começam a disparar ao mesmo tempo, ficar sem munições pode transformar uma situação controlável num problema bastante desagradável. De repente, temos de atravessar o fogo inimigo para chegar aos adversários, enquanto tentamos evitar perder demasiada vida antes de conseguir reagir.

A utilização de coberturas torna-se, por isso, importante. Podemos agachar-nos para evitar determinados ataques, esconder-nos e procurar uma oportunidade para surpreender os inimigos. Também é possível correr e saltar por cima de obstáculos, permitindo encurtar rapidamente a distância para atacar quem está a disparar. Estas opções ajudam a dar um pouco mais de dinamismo aos confrontos e afastam o jogo de uma sucessão simples de ataques e contra-ataques.

A progressão através de árvores de habilidades é uma das características mais interessantes. Rick, Daryl e Michonne podem desenvolver as suas capacidades ao longo da aventura, desbloqueando melhorias que permitem adaptar os personagens ao nosso estilo de jogo. Não estamos perante um RPG particularmente complexo, mas estas opções acrescentam um motivo para continuar a jogar e tornam a evolução das personagens mais relevante.

Também existem elementos de aventura que ajudam a quebrar a rotina. Algumas fases incluem objetivos opcionais, enquanto os cenários escondem colecionáveis que recompensam a exploração. Em vez de avançarmos sempre em linha reta, podemos dedicar algum tempo a procurar conteúdos adicionais e a descobrir o que cada missão tem para oferecer.

O jogo não é especialmente longo, e muitas das missões correspondem a uma única fase. O acesso aos níveis é feito através de um mapa e, em determinados momentos, podemos escolher entre algumas missões disponíveis. Esta liberdade limitada ajuda a dar algum controlo sobre a progressão, embora não transforme Streets of Survival numa aventura de grandes dimensões.

Depois de terminar a campanha pela primeira vez, desbloqueamos Negan como personagem jogável. Esta é uma adição interessante, especialmente para quem acompanha a série, e permite repetir as missões com uma perspetiva diferente. Negan tem a sua própria árvore de habilidades, o que acrescenta outro incentivo para regressar aos níveis já concluídos.

A maior desilusão está no modo de sobrevivência interminável, que se encontra bloqueado por conteúdo adicional pago. É uma decisão difícil de ignorar num jogo deste género, sobretudo porque um modo centrado em resistir a vagas sucessivas de inimigos parece uma extensão natural da própria fórmula. A sua ausência do conteúdo principal reduz as possibilidades de prolongar a experiência sem custos adicionais.

No conjunto, a jogabilidade é suficientemente divertida para sustentar uma aventura curta, mas nem sempre consegue manter o equilíbrio entre os diferentes sistemas. Os tiroteios acrescentam variedade, as habilidades incentivam a progressão e as missões secundárias dão mais motivos para explorar. Por outro lado, alguns confrontos podem tornar-se confusos ou frustrantes, especialmente quando a falta de munições nos deixa perante vários adversários armados.

Mundo e história

Streets of Survival concentra-se num dos períodos mais reconhecíveis de The Walking Dead: a guerra entre Rick Grimes e os Salvadores, liderados por Negan. A escolha permite utilizar personagens e situações familiares aos fãs da série televisiva, afastando-se da adaptação direta das bandas desenhadas.

Rick, Daryl e Michonne assumem o protagonismo, oferecendo diferentes maneiras de enfrentar os obstáculos. A presença destas personagens ajuda a estabelecer uma ligação imediata ao universo da AMC e dá contexto aos confrontos. Em vez de acompanharmos um grupo original de sobreviventes, participamos num conflito que já ocupa um lugar importante na história da série.

A estrutura da campanha é relativamente convencional. Avançamos através de diferentes fases, enfrentamos os inimigos e cumprimos os objetivos necessários para continuar. O mapa permite selecionar algumas missões em diferentes ordens, mas a aventura mantém-se bastante linear e não procura reproduzir a dimensão de uma campanha narrativa tradicional.

A história serve sobretudo como enquadramento para a ação. Quem conhece The Walking Dead terá mais facilidade em reconhecer a importância das personagens e da guerra em curso, enquanto os restantes jogadores poderão apreciar a premissa sem necessariamente encontrar o mesmo peso emocional. O jogo não parece interessado em explorar em profundidade todos os dilemas morais que caracterizam a série, privilegiando os confrontos e a progressão.

Grafismo

A apresentação visual acompanha a estrutura de beat em up, com cenários de deslocação lateral e personagens que se movimentam entre grupos de inimigos. O estilo serve a jogabilidade e permite identificar os elementos principais da ação sem exigir uma grande complexidade visual.

No entanto, a informação disponível não permite fazer uma avaliação técnica aprofundada da qualidade gráfica, das animações ou do desempenho. O que se pode destacar é a escolha de um formato visual que combina bem com a estrutura das fases e com a ação direta que define o jogo.

A apresentação também depende bastante da familiaridade com o universo de The Walking Dead. Reconhecer Rick, Daryl, Michonne e Negan ajuda a estabelecer a ligação à série televisiva e dá contexto às situações que encontramos ao longo da campanha.

A maior preocupação está menos na apresentação em si e mais na forma como a ação se organiza durante os confrontos. Quando vários inimigos armados atacam em simultâneo, a gestão do espaço e das coberturas pode tornar-se mais complicada. Uma leitura clara da posição dos adversários é essencial num jogo em que precisamos frequentemente de decidir se devemos avançar, recuar ou procurar proteção.

Som

A identidade do jogo está sobretudo ligada à sua origem televisiva e às personagens que utiliza. A presença de Rick, Daryl, Michonne e Negan ajuda a transmitir a ligação ao universo da AMC, enquanto os confrontos e os tiroteios sustentam o ritmo da ação.

Sem elementos adicionais que permitam uma avaliação mais detalhada, este departamento fica como um aspeto sobre o qual é difícil retirar conclusões definitivas.

Conclusão

The Walking Dead: Streets of Survival é uma adaptação que encontra algum mérito ao transformar o universo da série num beat em up de deslocação lateral. A escolha da guerra contra os Salvadores oferece um contexto reconhecível, enquanto a possibilidade de jogar com Rick, Daryl e Michonne ajuda a estabelecer uma ligação imediata aos fãs da série televisiva.

O combate é simples, mas tem alguns elementos interessantes. A utilização de armas de fogo, a necessidade de procurar cobertura e a possibilidade de desenvolver as personagens através de árvores de habilidades acrescentam variedade a uma estrutura que poderia facilmente limitar-se a ataques repetitivos. Os objetivos opcionais e os colecionáveis também ajudam a prolongar a exploração, enquanto o desbloqueio de Negan após a primeira conclusão oferece uma razão adicional para regressar.

Infelizmente, existem limitações que prejudicam a experiência. O combate pode tornar-se desequilibrado quando enfrentamos vários adversários armados e ficamos sem munições, enquanto algumas opções de ataque são demasiado básicas para um jogo que depende tanto da ação corpo a corpo. A duração reduzida da campanha também significa que a aventura termina antes de conseguir explorar todas as possibilidades dos seus sistemas.

A decisão de reservar o modo de sobrevivência interminável para conteúdo adicional pago é outra oportunidade perdida. Num género em que a repetição e a resistência a vagas sucessivas de inimigos podem prolongar bastante a diversão, seria desejável encontrar essa opção integrada na experiência principal.

Para os fãs da adaptação televisiva que procuram uma experiência de ação curta e direta, vale a pena considerar esta proposta. Para os restantes jogadores, existem beat em ups mais refinados e com sistemas de combate mais consistentes. Streets of Survival fica num meio-termo: uma adaptação competente, com algumas ideias interessantes, mas que precisava de maior equilíbrio e mais conteúdo para se destacar verdadeiramente.

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