Há jogos que nos desafiam a conquistar mundos, outros que nos colocam ao volante de máquinas complexas e depois existem aqueles que nos deixam simplesmente criar. ShipShaper: Falconeer Chronicles, desenvolvido por Tomas Sala, pertence a esta última categoria, oferecendo ferramentas para construir barcos e navios de praticamente qualquer tipo. Desde pequenas embarcações de pesca a enormes couraçados, passando por veleiros históricos e criações saídas da nossa imaginação, a proposta é dar liberdade para experimentar sem exigir conhecimentos avançados de modelação 3D.
É uma ideia bastante específica, mas que consegue encontrar um público próprio. Quem gosta de navios, modelação ou simplesmente de construir coisas à sua maneira tem aqui uma ferramenta com bastante potencial. Apesar de algumas dificuldades na interface, a experiência já demonstra que criar embarcações pode ser tão divertido como navegar com elas.
Jogabilidade
A construção é o centro de ShipShaper. O sistema permite puxar, empurrar e deformar partes do casco para encontrar a forma pretendida, sem obrigar o jogador a dominar ferramentas tradicionais de modelação tridimensional. Depois de estabelecer a estrutura principal, podemos acrescentar mastros, armamento, escadas e outros elementos, ajustando as proporções para criar uma embarcação com identidade própria.
Esta liberdade permite explorar diferentes épocas e estilos. Podemos tentar reproduzir navios históricos, inventar máquinas de guerra imaginárias ou construir algo completamente absurdo, sem existir necessariamente uma solução correta. É precisamente essa ausência de objetivos rígidos que torna o processo interessante: muitas vezes, começamos com uma ideia e acabamos a experimentar alterações que nem sequer tínhamos planeado.
Quando terminamos a construção, podemos colocar o navio na água e testar o seu comportamento. O jogo analisa características como a forma do casco, o peso e a propulsão, procurando determinar como a embarcação se comporta durante a navegação. Assim, a construção não fica limitada à aparência, embora a vertente criativa seja claramente a principal atração.
Existem, contudo, algumas dificuldades. A interface pode ser pouco intuitiva e a seleção ou rotação de peças nem sempre é tão simples como seria desejável. Como os controlos estão associados ao espaço de construção, mudar a perspetiva da câmara pode dificultar o acesso a determinadas opções. A colocação de elementos também pode exigir alguma insistência, sobretudo quando tentamos encaixá-los em estruturas já existentes.

Mundo e história
ShipShaper não é uma aventura tradicional e não procura contar uma história através de personagens ou missões. O seu propósito é oferecer um espaço onde a criatividade do jogador assume o papel principal. Em vez de explorar um mundo à procura de objetivos, somos nós que decidimos o que construir e que tipo de embarcação queremos colocar na água.
A liberdade é especialmente interessante para os entusiastas da história naval. Podemos inspirar-nos nos veleiros clássicos, nos navios de guerra do século XIX ou nos primeiros couraçados, mas também não estamos limitados pela realidade. As possibilidades incluem embarcações de fantasia e criações com uma estética steampunk, permitindo misturar épocas e ideias sem grandes restrições.
É uma abordagem interessante, sobretudo porque transforma as criações em algo que pode acompanhar o jogador entre projetos, em vez de ficarem presas a um único ambiente.
Grafismo
Visualmente, ShipShaper aposta na representação tridimensional das embarcações e, sobretudo, na forma como permite alterar as suas estruturas. O principal destaque não está em apresentar cenários complexos ou efeitos espetaculares, mas em tornar a modelação acessível e permitir observar o resultado de cada alteração.
A construção orgânica dos cascos é particularmente importante. Em vez de trabalhar exclusivamente com peças geométricas rígidas, o jogador pode ajustar as formas de maneira mais livre, criando silhuetas que seriam difíceis de conseguir através de sistemas baseados numa grelha tradicional. Esta abordagem ajuda a tornar cada navio mais pessoal e aproxima o processo da modelação de uma peça artesanal.
A possibilidade de testar as embarcações no mar também acrescenta valor ao resultado visual. Depois de várias alterações, ver o navio a flutuar permite perceber melhor as suas proporções e avaliar aquilo que conseguimos construir.

Som
O som da navegação poderá complementar os testes das embarcações, mas a essência do jogo está no processo criativo. É uma proposta que pode ser apreciada durante longas sessões de experimentação, sem depender de uma narrativa ou de um acompanhamento musical marcante.
Conclusão
ShipShaper: Falconeer Chronicles é uma proposta bastante interessante para quem gosta de construir navios e experimentar com modelação 3D, mas não quer enfrentar a complexidade de ferramentas profissionais. O sistema de deformação dos cascos permite criar embarcações com bastante liberdade, e a possibilidade de navegar com elas acrescenta uma dimensão prática ao processo.
A exportação para ficheiros FBX e STL é outro dos grandes argumentos do projeto. Poder transformar uma criação digital num modelo para impressão 3D ou utilizá-la noutros projetos abre possibilidades que vão muito além do entretenimento. A integração com Bulwark: Falconeer Chronicles também reforça a utilidade das embarcações criadas.

