Análises

Análise: Songs of Glimmerwick

E se a magia não dependesse de varinhas, palavras misteriosas ou fórmulas complicadas, mas sim da música? É esta a ideia que está no centro de Songs of Glimmerwick, o novo projeto da Eastshade Studios, que procura combinar a tranquilidade dos RPGs acolhedores com um mundo de fantasia onde tocar um instrumento é essencial para descobrir e transformar o ambiente à nossa volta.

A aventura começa com a chegada do nosso protagonista às Ilhas de Glimmerwick, onde vamos estudar na Etchery School of Magic and Melody. Somos um novo aluno, longe de casa e perante um universo desconhecido, mas rapidamente encontramos motivos para nos integrar na comunidade. Temos aulas de música, poções e botânica, um quarto numa residência estudantil, um colega de quarto bastante peculiar e uma lista de tarefas que parece crescer a cada dia.

Existe, naturalmente, um mistério por resolver. O mundo foi afetado pela chamada Silence, uma maldição que retirou os sons de determinadas regiões. Apesar de o fenómeno ter terminado há vários anos, continuam a existir lugares onde o silêncio domina, e é através da magia musical que podemos ajudar a recuperar o equilíbrio.

A proposta faz lembrar jogos como Stardew Valley e Fields of Mistria, embora a sua identidade visual e o universo de fantasia apontem para uma direção bastante diferente. A música não é apenas um complemento à experiência: está presente na exploração, na agricultura, na resolução de problemas e na própria relação com o mundo.

Depois de vários dias de exploração ao longo das diferentes estações, Songs of Glimmerwick revela uma experiência bastante mais rica do que a primeira impressão deixa antever. A progressão inicial é algo lenta e existem algumas limitações na gestão do inventário e nas deslocações, mas a combinação entre magia, personagens e música consegue criar um mundo onde apetece passar bastante tempo.

Jogabilidade

A primeira coisa que chama a atenção em Songs of Glimmerwick é a forma como utiliza a música como mecânica central. O nosso instrumento é uma flauta mágica e praticamente todas as capacidades especiais dependem da aprendizagem de novas melodias. Para dominar um feitiço, temos de completar uma pequena sequência musical, numa apresentação que faz lembrar os jogos de ritmo como Guitar Hero.

Depois de aprendermos uma melodia, podemos utilizá-la para produzir diferentes efeitos. A magia permite interagir com a vegetação, alterar elementos da paisagem, combater a maldição do silêncio e até provocar chuva. Esta última capacidade é particularmente útil para quem se dedica à agricultura, já que permite facilitar a rega das plantações.

A agricultura também tem alguma importância. Como parte das nossas responsabilidades enquanto estudantes, recebemos a tarefa de cuidar do jardim da universidade. Isto acaba por funcionar como uma introdução a uma das atividades secundárias mais recorrentes, uma vez que várias missões exigem encontrar, cultivar ou utilizar determinados ingredientes e plantas.

Outro aspeto particularmente interessante é a gestão do tempo. Ao contrário de muitos jogos deste género, onde temos de organizar cuidadosamente cada dia para conseguir cumprir tarefas antes de anoitecer, Songs of Glimmerwick permite parar o relógio durante os eventos do calendário. Isto significa que podemos participar numa aula, explorar a região ou completar atividades sem sentir que estamos constantemente a perder tempo.

Não existe a preocupação habitual com a hora de dormir ou com a possibilidade de desmaiar por termos passado demasiado tempo fora de casa. Podemos organizar o nosso dia com muito mais liberdade, o que torna a experiência consideravelmente mais descontraída.

Esta decisão encaixa perfeitamente na identidade do jogo. Em vez de transformar cada tarefa numa corrida contra o relógio, permite aproveitar os diferentes sistemas ao nosso ritmo. A única preocupação acaba por ser decidir aquilo que queremos fazer a seguir, algo que, considerando a quantidade de atividades disponíveis, nem sempre é fácil.

A progressão também tem algumas limitações. No início, temos acesso a poucas melodias e as primeiras horas ficam bastante concentradas nas tarefas agrícolas e nas atividades mais básicas. É necessário investir algum tempo até desbloquear capacidades que realmente ampliam as possibilidades de exploração.

A gestão do inventário é outra área que poderia ser melhorada. Entre os trabalhos de casa, os pedidos dos habitantes e os recursos que encontramos durante as viagens, os espaços disponíveis tornam-se rapidamente insuficientes. Só mais tarde conseguimos desbloquear melhorias que aumentam a capacidade de transporte, obrigando-nos, entretanto, a decidir constantemente o que guardar, vender ou simplesmente abandonar.

Por último, as deslocações entre localidades poderiam ser mais eficientes. Existe um sistema limitado de viagem através de elementos mágicos, incluindo uma espécie de acordo com uma entidade fantasmagórica e uma corda especial, mas durante boa parte da aventura acabamos por atravessar repetidamente a ponte entre a universidade e Wisk. Como existem várias missões espalhadas pelo mundo, este percurso começa a tornar-se cansativo.

Mundo e história

O universo de Glimmerwick é um dos elementos que mais contribuem para a personalidade da experiência. A história decorre num arquipélago onde a magia musical faz parte da vida quotidiana, embora a maldição conhecida como Silence tenha deixado marcas em diferentes regiões.

A nossa chegada à Etchery School of Magic and Melody serve como ponto de partida para descobrir este mundo. Somos apresentados a uma comunidade de estudantes e professores, frequentamos aulas e começamos a conhecer os habitantes das localidades próximas. A universidade funciona como uma espécie de centro da aventura, oferecendo atividades, personagens e novos caminhos para explorar.

Existe um ambiente académico bastante acolhedor, com uma residência estudantil, salas comuns, gatos e colegas com personalidades distintas. Também podemos participar em eventos sazonais e atividades opcionais, como assistir a espetáculos musicais no Cup and Kettle ou jogar Forests & Fairies com outros estudantes.

A relação com os habitantes é uma componente importante da progressão. Ao conversar com as diferentes personagens, desbloqueamos novos tópicos que podem revelar informações úteis para as missões. Ser curioso não serve apenas para conhecer melhor o universo: também pode ajudar a descobrir pistas e encontrar soluções para determinados problemas.

Ao longo da aventura, encontramos figuras bastante peculiares, como Bristlecone, um fabricante de flautas com uma maneira de falar particularmente poética, e Rose, uma personagem com aspeto de inseto e uma personalidade igualmente invulgar. São pequenos exemplos da criatividade que existe na construção deste universo.

A exploração também tem um papel importante na narrativa. À medida que nos afastamos da universidade e descobrimos novas regiões, encontramos criaturas misteriosas, elementos mágicos e vestígios da maldição que afetou o mundo. Existe uma história principal a acompanhar, mas grande parte do encanto está nas pequenas descobertas e nas relações que vamos estabelecendo.

O mundo não parece estar construído apenas para nos conduzir de uma missão à seguinte. Há atividades que podemos simplesmente ignorar, eventos em que não somos obrigados a participar e conversas que existem para dar mais vida à comunidade. Esta liberdade ajuda a criar a sensação de que fazemos realmente parte daquele lugar.

É uma experiência que privilegia a descoberta e a integração num universo de fantasia, em vez de apostar numa sucessão constante de grandes acontecimentos. Para quem aprecia RPGs onde as personagens e o ambiente são tão importantes como os objetivos principais, esta abordagem funciona particularmente bem.

Grafismo

Visualmente, Songs of Glimmerwick tem uma identidade bastante própria. Em vez de seguir a estética pixelizada de muitos simuladores agrícolas ou recuperar os gráficos dos clássicos de Harvest Moon, aposta numa direção artística que parece saída de um livro ilustrado.

A apresentação faz lembrar, em alguns momentos, o trabalho da Amanita Design na série Samorost, mas com uma abordagem mais próxima de um conto de fantasia. Os ambientes são ricos em detalhes, as cores transmitem uma sensação de tranquilidade e a vegetação contribui para dar vida às diferentes regiões.

A própria universidade é um bom exemplo desta identidade visual. Os jardins, os espaços comuns e os edifícios parecem pertencer a um mundo onde a magia faz parte da rotina, sem que tudo precise de ser excessivamente extravagante. Existe um equilíbrio agradável entre o fantástico e o quotidiano.

As mudanças entre regiões também ajudam a valorizar o trabalho artístico. À medida que percorremos o mundo, a apresentação acompanha a transição entre diferentes ambientes, contribuindo para a sensação de estarmos a explorar um arquipélago com características próprias.

A animação e os elementos de interação acompanham esta direção artística, embora seja sobretudo através dos cenários e das personagens que o jogo consegue criar a sua identidade. Não tenta impressionar através do realismo ou da complexidade técnica, preferindo uma apresentação estilizada e coerente com o tom da aventura.

O resultado é visualmente encantador e ajuda bastante a compensar o ritmo mais lento das primeiras horas. Mesmo quando estamos apenas a atravessar uma região para completar mais uma tarefa, existe sempre algum detalhe no ambiente que merece atenção.

Som

As vozes são outro dos pontos positivos. A narração inicial apresenta uma interpretação particularmente envolvente, enquanto as restantes personagens beneficiam de um trabalho vocal que ajuda a dar credibilidade às suas personalidades. A música cantada merece igualmente destaque e acaba por ser uma das maiores surpresas da experiência.

Conclusão

Songs of Glimmerwick é uma aventura acolhedora que encontra na música uma forma bastante original de dar personalidade às mecânicas tradicionais dos RPGs de exploração. A utilização de melodias para lançar feitiços, transformar o ambiente e ajudar nas tarefas quotidianas funciona muito bem, sobretudo quando começamos a desbloquear capacidades que ampliam as possibilidades de interação.

A ausência de pressão relacionada com o tempo é outra decisão particularmente acertada. Poder frequentar aulas, participar em eventos e completar missões sem estar constantemente preocupado com o relógio torna a experiência muito mais descontraída. É um jogo que nos convida a aproveitar o mundo, em vez de transformar cada dia numa lista de tarefas que temos de despachar.

Existem, naturalmente, alguns aspetos menos conseguidos. O início é relativamente lento, a progressão demora algum tempo a revelar toda a variedade de feitiços e a gestão do inventário pode tornar-se frustrante. As deslocações repetidas entre localidades também podiam beneficiar de um sistema de viagem mais eficiente, especialmente quando o número de missões começa a aumentar.

Para quem aprecia RPGs acolhedores, exploração, personagens peculiares e mundos de fantasia com uma identidade própria, Songs of Glimmerwick merece estar no radar. Não é apenas mais um jogo de agricultura com elementos mágicos: é uma aventura onde a música está presente em praticamente tudo o que fazemos. E, por vezes, basta encontrar a melodia certa para perceber que valeu a pena chegar até Glimmerwick.

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