Análise Beyond: Duas Almas

Não há nenhum género que consiga enquadrar realmente aquilo que a Quantic Dream faz. Olhando de uma forma superficial são aventuras, mas são aventuras que se encontram num género próprio, à parte daquilo que a Telltale faz por exemplo. Não existem puzzles propriamente ditos e no geral seguimos um dos vários caminhos que a Quantic Dream nos oferece. Olhando para Beyond: Duas Almas, o jogo que mais se aproxima mais é Heavy Rain, outro jogo da Quantic Dream.

Se jogaram Heavy Rain já sabem então sabem o que esperar. Aqui não andamos atrás de um assassino, voltando a Quantic Dream a um tema sobrenatural que já tinha abordado em Fahrenheit, havendo até muito em comum com o seu jogo de 2005.  Aqui controlamos Jodie Holmes e Aiden. Jodie, criada à imagem da actriz Elen Page que lhe dá também voz,  vive ligada a uma entidade desde que nasceu. Aiden, a estranha entidade sobre que pouco sabemos, é como um animal enjaulado que Jodie tenta controlar mas nem sempre consegue.

Este é o inicio da história mas há muito mais para saber sobre Jodie e Aiden, desde a sua infância como basicamente um objecto de estudo até à sua passagem pela CIA onde era usada pelos seus poderes. Isto e a única coisa que vou falar sobre a narrativa, pois a razão principal para jogar qualquer dos jogos da Quantic Dream é a sua história e no grande panorama da história Beyond não desilude, mas ao utilizar um esquema semelhante do de Heavy Rain para contar a história estraga muita dessa qualidade. Em Heavy Rain a história era contada por vários protagonistas com o jogo a ir iterando entre eles. Em Beyond existe apenas Jodie, mas o esquema narrativo é semelhante, com o jogador a acompanhar várias fases da sua vida, desde a infância até à idade adulta.

Contrário ao que seria de esperar não começamos por acompanhar Jodie enquanto criança e vamos progredindo. A Quantic Dream escolheu por baralhar completamente tudo e tanto jogador como criança, para depois jogar como adulta, voltar à adolescência, ir um pouco à idade adulta e voltar a criança e por aí fora. Não faz realmente sentido e por vezes é até difícil saber onde se coloca uma certa sequência. Quando jogamos sequências em que Jodie tem a mesma aparência também não seguimos uma ordem cronológica. Felizmente o ecrã de loading indica-nos a ordem da sequência que vamos jogando de seguida.

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Esta progressão fragmentada poderia ser bem utilizada de várias formas, mas com algumas más escolhas prejudica mais do que ajuda a história. Seria de esperar que iríamos acompanhar Jodie à medida que ela aprende a viver com Aiden e descobrindo os seus poderes. Mas é comum descobrirmos essas habilidades quando estamos a jogar como Jodie adulta, o que torna muitas sequências infantis e adolescentes bastante inúteis.

Este esquema faz também com que não exista realmente uma ameaça em parte do jogo. Em Heavy Rain todas as personagens podiam morrer em várias partes do jogo, mas aqui nunca sentimos isso. Se jogamos com Jodie adulta sabemos que ela está viva e portanto tudo o que é passado nunca consegue passar uma ideia de perigo. No geral senti-me muito mais preso e restringido em Beyond do que alguma vez senti em Heavy Rain. Senti-me realmente como um espectador a assistir apenas à história que a Quantic Dream queria contar. Não senti que existiam escolhas que influenciassem realmente o desenrolar da história nem que era eu a influenciá-la.

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Quando se juntam todas as peças a história de Beyond é fantástica e Elen Page e Willem Dafoe têm óptimas prestações, mas devia ter sido realmente considerada outra forma de contar a história. Se poderem recomendaria usar as vozes originais, pois apesar de não ter nada contra as portuguesas e até terem qualidade, do outro lado estão Elen Page e Willem Dafoe que para mim são muito superiores e muito melhor sincronizadas com a boca das personagens. Além da história, a qualidade dos actores é outro trunfo de Beyond. Grandes nomes de Hollywood emprestam a sua voz e aspecto físico a este verdadeiro filme interactivo.

A jogabilidade é na minha opinião um ponto contra Beyond também. O jogo retira e dá constantemente o controlo ao jogador. Infelizmente quando  dá o controlo ao jogador, não o dá em grande quantidade. Podemos andar um bocado e interagir com uma ou duas coisas, mas no geral pouco podemos fazer. Mesmo as zonas que poderiam dar um controlo quase total ao jogador estão muito limitadas, com o jogador a poder em muitas destas ocasiões pouco mais fazer que carregar num botão.

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A particularidade interessante da jogabilidade é Aiden. A entidade ligada a Jodie é essencial para prosseguir na aventura. Ela pode atravessar paredes, abrir portas, mover objectos, controlar inimigos ou proteger Jodie. Tudo isto torna a frágil personagem numa verdadeira super heroína. As poucas escolhas que temos no jogo envolvem normalmente Aiden e se o devemos deixar espalhar a sua brutalidade ou se o paramos e impedimos uma vingança demasiado violenta.

Há muito para gostar em Beyond: Duas Almas. A história e as suas personagens são soberbas, a forma como fala da descriminação de Jodie e a sua vida difícil. A história é realmente interessante e apesar de divagar um pouco por vezes, nunca perde a sua noção de paranormal e não se perde tanto no final como aconteceu em Fahrenheit. No entanto a forma demasiado fragmentada como a história é contada faz com que esta perca muito do impacto e imprevisibilidade que marcou Heavy Rain. A falta de feedback sempre que o controlo é retirado e devolvido ao jogador acaba por também tornar a experiência de jogo um pouco estranha. É normal enquanto jogamos ir carregando no analógico apenas para ver se já estamos a controlar Jodie ou não.

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Se gostaram de Heavy Rain vão gostar de Beyond: Duas Almas sem qualquer duvida, mas fica a sensação de que este é um jogo inferior em muitos aspectos. Os grandes nomes e boa história redimem-no muito e são sem duvida o melhor que este tem para oferecer. Tal como todos os jogos da Quantic Dream convém saber exactamente o que vamos jogar. Este não é um jogo com muita acção e onde o jogador tem o papel fundamental. Este é um jogo que deve ser jogado em sessões longas e apenas uma vez, pois apesar de até os troféus incentivarem múltiplas playthroughs, gosto da ideia de ver o final que representa a minha forma real de jogar e pensar e não todos os finais que o jogo oferece.

Se se revêem em tudo o descrevo, então Beyond: Duas Almas oferece tudo isso e muito mais, mas preparem-se para uma jogabilidade limitada e uma história com demasiadas interrupções para o seu próprio bem.

8/10 

 

Tiago Roque

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