Análise: Haunted Lands

Haunted Lands surge como uma verdadeira cápsula do tempo, um jogo que parece ter sido resgatado diretamente de uma pasta esquecida de MS-DOS do início dos anos 90. Depois de ganhar forma no Itch.io, este projeto desenvolvido a solo por Alevgor encontrou agora um novo palco no Steam, apresentando-se como um action platformer rápido, brutal e profundamente enraizado na estética retro. A sua inspiração em clássicos como Dangerous Dave é evidente desde os primeiros segundos, não apenas no aspeto visual, mas também na forma como desafia o jogador.

Este não é um jogo que tenta suavizar arestas ou adaptar-se aos padrões modernos. Pelo contrário, Haunted Lands abraça sem medo as suas raízes, oferecendo uma experiência exigente, focada na perícia, na memorização e na superação constante. Num panorama atual onde muitos jogos procuram ser acessíveis, esta obra opta por seguir o caminho oposto, quase como um manifesto de nostalgia e desafio.

Jogabilidade

A base da jogabilidade assenta numa estrutura simples à primeira vista, mas rapidamente revela uma profundidade considerável. O jogador começa com acesso a três personagens distintas: o Veteran, o Werewolf e a Sorceress. Cada uma oferece um estilo de jogo próprio, incentivando a experimentação e a adaptação.

O Werewolf destaca-se imediatamente como uma escolha agressiva e versátil. Com habilidades como um dash rápido, ataques que perfuram múltiplos inimigos e uma investida poderosa que também serve para alcançar plataformas distantes, esta classe proporciona um ritmo intenso. A mecânica de Wrath acrescenta ainda uma camada estratégica, permitindo desencadear ataques devastadores ou habilidades especiais quando o medidor está cheio.

Por outro lado, a Sorceress oferece uma abordagem mais controlada, com ataques mágicos à distância e a capacidade de pairar ligeiramente no ar. Esta mobilidade extra pode fazer toda a diferença em momentos mais caóticos, especialmente quando o ecrã se enche de inimigos.

Já o Veteran acaba por ser a opção menos apelativa. Apesar de parecer inicialmente seguro devido à sua espingarda de dois canos, o tempo de recarga constante entre disparos torna-o vulnerável. A ilusão de controlo à distância desaparece rapidamente quando os inimigos se aproximam durante essas pausas, criando momentos frustrantes.

À medida que se progride, são desbloqueadas mais três classes: Ranger, Salamander e Warlock, aumentando a variedade e a longevidade da experiência. Antes de cada missão, é possível equipar itens especiais através do Vault, preparando o personagem para os desafios que se seguem.

A estrutura de progressão baseia-se num mapa onde escolhemos destinos desbloqueados. O primeiro grande cenário é a Old Mansion, um local repleto de moedas e artefactos valiosos. No entanto, há um risco constante: tudo o que é recolhido tem de ser trazido de volta em segurança. É possível terminar a missão ou recuar, mas apenas a partir do ponto inicial do nível. Esta mecânica cria uma tensão constante, obrigando o jogador a ponderar cada decisão.

Mundo e história

O mundo de Haunted Lands é sombrio e minimalista na sua narrativa, mas eficaz na construção de ambiente. O jogador assume o papel de um defensor de terrenos sagrados e esquecidos, ameaçados por cultistas e criaturas infernais. Não há longas sequências narrativas ou diálogos elaborados; a história é transmitida sobretudo através do contexto e da ação.

Cada localização apresenta-se como um fragmento deste mundo corrompido, dividido em várias secções que reforçam a sensação de progressão e exploração. Apesar da simplicidade narrativa, existe um fio condutor claro: resistir, sobreviver e purgar o mal que assola estas terras.

Este minimalismo funciona a favor do jogo, permitindo que o foco permaneça na jogabilidade. Ainda assim, há um certo charme na forma como evoca uma época em que os jogos contavam histórias de forma mais subtil, deixando espaço para a imaginação do jogador preencher as lacunas.

Grafismo

Visualmente, Haunted Lands é uma homenagem declarada à era MS-DOS e NES. Os cenários são pixelizados, coloridos e cheios de personalidade, conseguindo capturar com precisão o espírito dos jogos dessa altura. No entanto, esta fidelidade ao passado traz também algumas particularidades menos intuitivas.

Existem momentos em que a lógica visual pode confundir, como quando é possível saltar para cima de caixas e ficar sobre elas, mas ao mesmo tempo atravessá-las ao nível do chão. Este tipo de inconsistência é claramente intencional, replicando limitações e escolhas de design da época, mas pode causar estranheza a jogadores mais habituados a convenções modernas.

Outro elemento marcante é o nível de violência. O jogo não se contém na representação de sangue e destruição, com inimigos a explodirem em pedaços de forma frequente. Esta componente gore reforça a identidade mais crua e agressiva da experiência.

Som

Se há área onde Haunted Lands brilha sem reservas, é no som. A banda sonora é absolutamente contagiante, combinando metal energético com riffs de guitarra intensos e bateria acelerada, acompanhados por melodias synth que ficam facilmente no ouvido.

Esta fusão sonora encaixa perfeitamente no ritmo frenético do jogo, amplificando a adrenalina de cada combate. Cada nível ganha uma identidade própria através da música, tornando a experiência ainda mais envolvente.

Os efeitos sonoros também cumprem bem o seu papel, reforçando o impacto das ações e contribuindo para a sensação de peso nos ataques. No conjunto, o áudio é um dos pilares mais fortes do jogo.

Conclusão

Haunted Lands é uma carta de amor a uma era em que os jogos eram implacáveis e exigiam dedicação total. É uma experiência que não faz concessões, obrigando o jogador a aprender, falhar e tentar novamente até dominar completamente as suas mecânicas.

A dificuldade elevada pode afastar alguns, especialmente devido à frequência limitada de gravações e à constante ameaça de perder progresso. No entanto, é precisamente essa pressão que torna cada vitória tão satisfatória.

Apesar de alguns controlos menos polidos e decisões de design que podem parecer arcaicas, o jogo compensa com uma identidade forte, uma jogabilidade viciante e uma apresentação sonora de excelência. Não é uma experiência para todos, mas para quem procura um desafio genuíno e uma viagem ao passado, Haunted Lands revela-se uma pequena pérola retro, construída com paixão e uma clara compreensão do que tornava os clássicos tão memoráveis.

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