Análise: It

Stephen King não é propriamente o meu escritor favorito, mas está na lista dos meus autores favoritos eocupa parte considerável da minha estante. Infelizmente It não está na lista dos livros que li do autor e nunca vi a mini série original que se tornou de culto. Isto faz com que seja impossível para mim comparar este novo filme com alguma coisa além de outro material do mesmo autor.

Mais do que nos oferecer boas histórias, aquilo que eu consideraria o mais ponto forte de Stephen King é oferecer-nos em todos os seus livros boas personagens. Existem no mundo da literatura personagens completamente icónicas, mas as de Stephen King são além de boas personagens, credíveis e relacionaveis, e em It podemos ver exatamente isso.

It é a história de uma cidade que parece estar assombrada por alguma coisa, com eventos recorrentes ao longo dos anos com crianças a desaparecer para nunca mais serem encontradas. O filme começa com uma cena icónica que mesmo quem nunca viu o original irá reconhecer, a da criança a correr atrás de um pequeno barco de papel que acaba por cair na sarjeta. É aqui que conhecemos Pennywise o palhaço dançante, a criatura do filme.

O filme salta para um ano depois e introduz-nos o clube dos falhados, um grupo de crianças nada populares mas que partilham entre si uma amizade enorme. O filme transborda de nostalgia pelos anos 80. O que é que se passa com os filmes recentes e os anos 80? Toda a amizade das crianças é típica dessa época com as crianças a passear de bicicleta pelo bairro e a irem passar pelo mato nos arredores, ou seja tudo o que não se pode fazer hoje em dia. É nesta relação entre as personagens que vemos a qualidade da narrativa de Stephen King. Mesmo nos seus pilares livros a qualidades das personagens se destaca.

Nem todos os elementos do grupo dos falhados tem direito a muito tempo no ecrã, mas mesmo os que estão menos tempo no ecrã estão bem caracterizados. Com tudo o que foi dito podem perguntar, mas isto não é filme de terror? Bem a realidade é que sim é, mas é também enquanto filme de terror que It perde mais pontos. É competente mas não é propriamente assustador. Usa e abusa é todos os clichês e é tipicamente um filme de terror à Hollywood e isso nota-se. Apesar de tudo It funciona muito melhor como um filme de fim de adolescencia do que como filme de terror.

Por fim vamos falar de Pennywise. A interpretação de Bill Skarsgård é perfeita. Não há nada que eu possa dizer de errado neste aspecto. Mas depois temos as dezenas de cenas em que Pennywise aparece mas não é propriamente Bill Skarsgård. Aqui é praticamente só CGI e maior parte destas é assombrada pelo cliché jump scare que assombra as produções de terror de Hollywood. Acaba por ser com os verdadeiros demónios do dia a dia que It é mais perturbador. Os pais que perderam o filho e não conseguiram ainda lidar com isso, o pai controlador da filha e a mãe que controla de outra forma o filho. Todos os elementos do clube dos falhados tem os seus próprios demónios e são esses que os tornam invulneráveis a Pennywise, pois esses sim são assustadores. É nestes aspectos que It é bom, muito bom mesmo. Por outro lado, como filme de terror não é bom nem mau, é igual a todos os outros.

Tiago Roque

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