Análise: Where the Water Tastes Like Wine

Fazer um jogo sobre a história americana é uma coisa, fazer um sobre a sua cultura é outra bem diferente. Estamos a falar de um país recente em que o capitalismo e a sua cultura se misturam de uma forma que não acontece em mais nenhum outro país e se existe uma verdadeira cultura americana, essa cultura é o consumismo. Esta era a minha opinião até Where the Water Tastes Like Wine me convencer do contrário. Da Dim Bulb Games e Serenity Forge, Where the Water Tastes Like Wine é tanto um jogo de aventura como uma experiência que mergulha profundamente na arte de contar histórias, e mais especificamente nos mitos e folclore americanos que definiram o país.

De contos de desespero e desgosto a histórias simplesmente estranhas e bizarras cada momento é memorável e fantástico ao mesmo tempo. Se estas histórias são ficção ou histórias verídicas, isso acaba por ficar na opinião de cada jogadores, mas as histórias de OWhere the Water Tastes Like Wine não são menos fascinantes por isso, com o próprio personagem à procura da terra prometida e em vez disso encontrando uma terra mágica recheada de história e rica em valores humanos. Where the Water Tastes Like Wine é um jogo de aventura indie que coloca os jogadores a viajar pelas estradas e caminhos de ferro dos Estados Unidos à procura de histórias de estranhos que o jogador encontra pelo caminho. Where the Water Tastes Like Wine é a definição da caminhada a ser a parte principal da aventura, e não o destino. O jogador encontra cerca de 16 personagens pelo caminho e conhece as suas histórias, passando-as depois às seguintes personagens que vai encontrando.

Ao recolher as histórias de outros viajantes, o jogador colecciona-as como uma colecção de cartas de tarot que pode usar para partilhar as histórias com as personagens que encontrar. Ao ouvir os seus próprios contos, as novos personagens que o jogador encontra pedem-nos para ouvir tipos específicos de histórias e quando o jogador atende às suas solicitações por um certo número de vezes ele consegue adicionar a sua história à sua colecção. Apesar de tudo é um conceito simples e interessante. Esta é a principal mecânica do jogo, mas o que realmente faz com que coleccionar e compartilhar as histórias da estrada seja interessante é o facto de que as histórias e as personagens que o jogador encontra geralmente aparecem mais do que uma vez durante o jogo e o reencontro é memorável.

Como todas as melhores histórias folclóricas e contos, as histórias humildes que se encontra no começo do jogo podem eventualmente transformar-se em lendas urbanas e contos, já que foram partilhadas por outros viajantes. Da mesma forma, uma personagem que podemos encontrar no início do jogo podem acabar por voltar ao jogador mas com uma escala totalmente diferente. A narrativa de Where the Water Tastes Like Wine é o elemento mais impressionante, o que não é surpreendente porque as histórias são o ponto central de todo o jogo.

No entanto, em termos de jogabilidade o jogo consegue parecer um jogo de dados. Algumas das categorias das história são fáceis de decifrar, mas muitas outras são um pouco mais vaga e o jogo acaba por chegar a uma espécie de tentativa erro que não é divertido. Há o objectivo final de colectar todas as histórias dos viajantes como forma de pagar uma dívida com o ser misterioso conhecido como “O Lobo”, quando o jogador faz um acordo com o diabo e perde a mão num jogo de cartas cheio de sorte contra ele no início do jogo, mas esta história principal é tão fraca quando comparada com o resto do jogo que é realmente secundária. O jogo em si tem lugar em um grande mapa 3D da América em que o jogador guia a personagem de várias formas. A maior parte desse tempo será gasta simplesmente andando de cidade em cidade mas à medida que o jogo avança podemos assumir tarefas adicionais, como explorar as cidades e encontrar trabalho para ganhar dinheiro. As opções de viagem também se expandem à medida que o jogador explora mais o país, já que pode comprar um bilhete de comboio ou uma boleia para encontrar outros personagens que estão trabalhando nos estados.

De maneira geral, o jogador passa o tempo a viajar em Where the Water Taste Like Wine, e isso pode não ser muito apelativo para muitos jogadores. Não há muita evolução ou mudança na rotina básica do jogo e isso pode tornar-lo simplesmente aborrecido para muitos. Dito isto, Where the Water Taste Like Wine faz com que cada personagem valha a aventura, pois as suas personalidades são trazidos à vida através de uma escrita e estilo excepcionais, com cada personagem a estar a cargo de um escritor diferente. Como um jogo dedicado à arte de contar histórias, Where the Water Tastes Like Wine brilha com a sua escrita poderosa, excepcional actuação de voz e  elementos visuais muito bem conseguidos, mas que não irão ser suficientes para agradar a todos.

Tiago Roque

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